O SUS vive!

Hoje vamos abrir uma exceção e publicar uma entrevista com um terceiro, fugindo da rotina deste blog. Mas trata-se de uma pessoa notável, amigo de muitos brasileiros, do Brasil e do SUS. Ele é Renato Tasca, italiano de Turim e responsável pela área de serviços de saúde da OPAS no Brasil. Mais brasileiro do que muitos brasileiros! Ele falou à jornalista Cristiane Segatto sobre o momento atual do nosso SUS, segundo ele um dos maiores programas sociais não só do Brasil como do mundo todo. Ele é taxativo “ na maioria dos países e, sobretudo, naqueles do tamanho do Brasil (China e Índia), não existe nada como o SUS. Se o pobre quiser uma cura, tem que pagar. Ter um SUS é o grande sonho de consumo dos cidadãos de muitos países. Nos Estados Unidos, o número de famílias que se ferram, que perdem tudo por causa de contas de hospital é enorme”. E prossegue: “é uma pena que hoje todo o esforço na criação e desenvolvimento do sistema não seja reconhecido. Hoje as pessoas acreditam mais em fake news do que em um artigo científico publicado no The Lancet. Não podemos desistir. É preciso acabar com a narrativa de que o SUS não funciona”. Bem no seu estilo, arremata: “O SUS está vivinho da silva…” Veja a entrevista completa no link: https://cristianesegatto.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/o-sus-esta-vivinho-da-silva-e-o-sonho-de-consumo-em-muitos-paises/

Autonomia e flexibilidade: quem não deseja isso no Serviço Público?

A gestão de serviços de saúde por administração estatal direta não é certamente a mais racional, em termos de autonomia e flexibilidade, mas é o que acontece na maioria das situações no Brasil. Aqui no DF, embora a situação mais comum seja esta, as coisas começam a mudar, com a vigência de contrato com o Icipe (Hospital da Criança), uma Organização Social – OS, e a criação de uma nova instância de gestão, o Iges, um Serviço Social Autônomo – SSA. Polêmicas não faltam, principalmente entre sindicalistas, oposição na Câmara Legislativa e certos setores ideológicos hard do Ministério Público. Mas é hora de encarar as coisas de frente, com clareza, sem preconceitos e sem ideologia – ou pelo menos dentro da boa ideologia da relevância da coisa pública e do interesse da sociedade. Eu acredito que isso seja possível. Alguns argumentos…   Continue Lendo “Autonomia e flexibilidade: quem não deseja isso no Serviço Público?”

Atenção Primária à Saúde no Brasil: um retrato em movimento

Como já comentei aqui, cerca de 1,3 mil iniciativas em atenção primária à saúde concorreram ao Prêmio APS Forte, estabelecido pela OPAS, Ministério da Saúde, Conasems, Conass e Conselho Nacional de Saúde. O prêmio procurou valorizar, sistematizar e divulgar experiências que ampliam o acesso do cidadão ao Sistema Único de Saúde. Dentre este total, 135 foram indicadas para premiação e 11 foram finalistas. Uma seleção final, realizada por uma banca de comunicadores e especialistas, indicou três vencedores, sendo as oito restantes também consideradas como premiadas. As recomendadas para o prêmio (135); e as finalistas (11) vão compor uma publicação técnica editada pela OPAS. Estas 11 experiências certamente representam um retrato do que acontece na realidade brasileira, pois provêm de todas as regiões do país, originadas de um certame que mobilizou a totalidade dos estados e várias centenas de municípios, de todos os portes, características econômicas, geográficas e políticas, sendo selecionadas através de um processo criterioso e operado por gente que entende do assunto. Cabe trazer alguma informação e uma breve análise sobre as mesmas. Continue Lendo “Atenção Primária à Saúde no Brasil: um retrato em movimento”

Atenção Primária à Saúde no DF: Eppur si muove…

O Prêmio APS Forte, organizado pela OPAS e Ministério da Saúde, já noticiado aqui neste blog, chega a sua etapa final. Cerca de 1,3 mil iniciativas, desenvolvidas por instâncias de gestão e por equipes de saúde do SUS, responderam a tal chamado. Experiências das cinco regiões brasileiras, de secretarias estaduais e de centenas de municípios, estiveram presentes. Destas, as recomendadas para o prêmio, em número 135, entre as quais 11 finalistas, vão compor uma publicação técnica eletrônica editada pela OPAS e Ministério da Saúde, chamada Navegador-SUS. A seleção final, feita por um comitê presidido por Drauzio Varela, indicará três vencedores, que serão agraciados a conhecerem uma experiência internacional de rede de atenção à saúde na Atenção Primária. O DF participa com nada menos do que 20 experiências finalistas, o que sem dúvida é uma performance digna de nota. Aqui neste post farei um breve comentário sobre as mesmas, que vão relacionadas ao final. São iniciativas que de fato demonstram, de forma eloquente, o estado da arte da atenção primária à saúde em nossa cidade, que avança mesmo apesar do pouco valor que lhe é conferido pelas autoridades da saúde. E no entanto, à moda de Galileu, ela se move… Continue Lendo “Atenção Primária à Saúde no DF: Eppur si muove…”

Por uma Atenção Primária à Saúde robusta

Cerca de 1,3 mil iniciativas para melhorar a saúde da população brasileira, desenvolvidas por instâncias de gestão e trabalhadores do SUS, concorreram ao Prêmio APS Forte, estabelecido pela Organização Panamericana da Saúde (OPAS), Ministério da Saúde e mais algumas instituições do setor, como o Conasems e o Conass, além do Conselho Nacional de Saúde. O foco do prêmio é o de valorizar, sistematizar e divulgar experiências que ampliam o acesso do cidadão ao Sistema Único de Saúde. Dentre elas, foram selecionadas 946 em uma primeira etapa, como 135 indicadas para premiação, das quais surgiram as 11 finalistas. O prêmio será conferido após avaliação de um comitê formado por especialistas e jornalistas de destaque no cenário nacional, em comitê presidido pelo médico Drauzio Varela.  São eles a colunista Claudia Collucci (Folha S. Paulo), a radialista Mara Régia (Rádio Nacional), a repórter Lígia Formenti (Estadão), os jornalistas Luiz Fara Monteiro (TV Record), Alan Ferreira, Chico Pinheiro (TV Globo) e Lise Alves (colaboradora da revista The Lancet). Experiências das cinco regiões brasileiras, de secretarias estaduais e de centenas de municípios, estiveram presentes. A seleção final indicará três vencedores, que serão agraciados a conhecerem uma experiência internacional de rede de atenção à saúde na Atenção Primária. As recomendadas para o prêmio (135); e as finalistas (11) vão compor uma publicação técnica eletrônica editada pela OPAS e Ministério da Saúde, chamada NavegadorSUS. As três práticas vencedoras estarão, ainda, sistematizadas no livro em formato de estudos de caso. Experiências desenvolvidas no DF estão entre as indicadas, embora não tenham composto o grupo das finalistas. Um breve sobrevoo sobre essas onze finalistas mostra aspectos interessantes do modus operandi das equipes de APS no Brasil – ver a seguir.   

PS. Tive a honra de participar da comissão que selecionou estas 11 finalistas. Deu trabalho, mas valeu a pena – aprendi muito! Meu grau de confiança na APS como verdadeira ordenadora do sistema de saúde só aumentou.
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Sobre as chamadas “clínicas populares”: os tempos estão mudando…

Como já disse Bob Dylan, “People are crazy and times are strange / I’m locked in tight, I’m out of range / I used to care, but things have changed”. Escrevo isso pensando na proliferação das chamadas “clínicas populares”, às vezes incluída como parte de um fenômeno mais amplo de “uberização” da economia, algo que vem acontecendo não só do DF, mas do Brasil como um todo. Uma coisa é certa: tais iniciativas chegaram, sem dúvida, para ocupar o lugar de um sistema público que não funciona ou, pelo menos, que deixa muito a desejar. Uma de suas características seria a oferta de serviços a preço baixo, porém com restrição de cobertura. Com efeito, há uma enorme precariedade no acesso ao SUS e dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que o número de pessoas que abandonam os planos de saúde é cada vez maior, seja em busca do SUS ou de outras formas de atendimento. Exatamente entre essas modalidades estão as clínicas ditas populares. Vamos condená-las, sob a pecha de representarem o império privado que quer destruir o SUS? Incensá-las como a verdadeira solução para os problemas de saúde no Brasil? O melhor não seria tentar entender o fenômeno como parte de um grande processo de mudança, para o qual torna-se preciso “não fechar os cenários e nem fugir dos caminhos” como está na canção de Dylan? Continue Lendo “Sobre as chamadas “clínicas populares”: os tempos estão mudando…”

Sobre “comunidade”: é preciso saber de que estamos falando…

Para nós que pertencemos ao campo da saúde coletiva ou a seus arredores, o termo “comunidade” é quase sagrado. Nada pode ser feito sem que ela esteja devidamente contemplada e valorizada. Perto dele, pessoas, famílias, grupos de indivíduos importam menos, principalmente quando está em jogo o desenvolvimento de propostas para a melhoria geral da saúde. Mas será que esta palavra tem o mesmo significado para todo mundo? Historicamente isso tem significado sempre a mesma coisa? Ou por outro lado, é necessário adicionar a ela alguns conceitos esclarecedores sobre seu verdadeiro significado? Ao falar de “comunidade, de forma muito genérica, não estaríamos esvaziando a palavra de sua importância conceitual e histórica? Trago aqui um artigo de Rogério da Costa, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, intitulado “Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva”, que ajuda pensar sobre estes dilemas. O autor inicia falando de uma transmutação do conceito de “comunidade” em “redes sociais”, mudança que se origina da verdadeira explosão das comunidades virtuais, que seriam não apenas uma nova maneira de se “fazer sociedade”, mas também fazem pensar em estruturas dinâmicas de redes de comunicação, trazendo conceitos (alguns deles radicalmente novos) que devem ser conhecidos e esclarecidos, tais como, capital social, confiança e simpatia, redes (de computadores e comunitárias); inteligência coletiva. No meu entendimento, puxando o foco para a área da saúde, tal discussão tem cabimento e fornece algumas respostas, além de lançar perguntas novas, com implicações relevantes, particularmente na atenção primária. Continue Lendo “Sobre “comunidade”: é preciso saber de que estamos falando…”