Cenas de uma quarentena

<<Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte. Os vizinhos, em geral, movidos tanto pelo temor de que a decomposição dos corpos os afetasse quanto pela caridade que tinham pelos falecidos, observavam um mesmo costume. Sozinhos ou com a ajuda de carregadores, quando podiam contar com estes, tiravam os finados de suas respectivas casas e os punham diante da porta, onde, sobretudo pelas manhãs, um sem-número deles podia ser visto por quem quer que passasse; então, providenciavam ataúdes e os carregavam (alguns corpos, por falta de ataúdes, foram carregados sobre tábuas). Continue Lendo “Cenas de uma quarentena”

O triunfo das nulidades

Esta semana, a insólita figura pela qual temos a má sorte de sermos governados, sim, ele mesmo, o inominável Messias, em seu destempero habitual, foi à TV, em cadeia nacional, para deblaterar contra as medidas que o mundo todo vem tomando contra a atual pandemia. Contrariou geral, não só os governadores e prefeitos brasileiros que já haviam se antecipado, mas também seu vice Mourão e seu Ministro da Saúde (que logo lhe abriu as pernas docemente), como também os cientistas, a imprensa séria, os governantes do todo o mundo civilizado. Deixou os cidadãos deste país sem saber pra onde ir. Até daquele norte-americano, do qual ele lambe as botas sofregamente, ele se desviou. Como este sujeito não deve ter o hábito de ler jornais, pelo menos os mais sérios, provavelmente ainda não soubesse que seu ídolo havia voltado atrás em tal questão. Mas não lhe faltaram os aplausos de sua legião de aloprados. Parece que a sua reconhecida especialidade de atirar no próprio pé está se aprimorando, tanto que agora consegue alvejar a própria nuca. Mas o pior não seria nada disso, pois o curso de tais acontecimentos poderá dar à sua alcateia de seguidores fanatizados a sensação de que seu “mito” mais uma vez agiu corretamente. Continue Lendo “O triunfo das nulidades”

A Peste e a Pandemia: reflexões à luz de Albert Camus

Albert Camus, escritor de língua francesa, nasceu na Argélia, em 1913 (morreu em 1960), filho de família pobre, “pied-noir”, na preconceituosa expressão utilizada pela elite de então. Viveu os conflitos da descolonização da Argélia, espectador da luta feroz entre argelinos muçulmanos e franceses da extrema direita. Teve uma vida movimentada, seja como escritor, jornalista, filósofo, divulgador de ideias e militante. Homem ligado à esquerda, tendo inclusive lutado entre os Partisans na Segunda Guerra, nem por isso escapou da oposição dos comunistas e inclusive rompeu com J. P. Sarte, de quem era amigo, por este motivo. É que ele apreciava a frase do poeta americano Walt Whitman, “sem liberdade, nada pode existir”. Um de seus livros mais famosos, A Peste, narra o decurso de uma epidemia em Oran, na Argélia, onde ratos mortos são encontrados de forma progressiva nas ruas e nas casas, principalmente entre as famílias mais pobres, não por acaso, árabes. As autoridades decretaram, por fim, um “estado de praga”, com os muros da cidade sendo fechados e se impondo uma quarentena à população. Buscar em tal romance um paralelo com a situação atual da pandemia de coronavirus é algo irresistível… Continue Lendo “A Peste e a Pandemia: reflexões à luz de Albert Camus”

Frágeis, demasiadamente frágeis…

Tempos difíceis estes de coronavirus, sem dúvida. Mas no meio de tanta incerteza, de tantos temores, vamos nos consolar com a oportunidade que estamos tendo, nós todos, de podermos refletir um pouco sobre nossas vidas, sobre nossa condição, sobre o que será de nós depois que tudo passar (porque vai passar!). No deserto da quarentena, sem dúvida, é possível encontrar algum oásis. Eu, por exemplo, tento fazer isso. Quando nada, ocupo meu tempo e até mesmo, em termos práticos, chego a encontrar algumas possíveis iluminações sobre o modo de vida com o qual chegamos até aqui. Que desconfio talvez se perpetue. Ou, pelo menos, que a vida de agora em diante não será exatamente a mesma do que foi até agora. Mas uma coisa é certa: somos (ou estamos) demasiadamente frágeis… Continue Lendo “Frágeis, demasiadamente frágeis…”

Escolhas forçosas…

Este coronavírus (prefiro chamá-lo assim, por um nome que todo mundo conhece), veio para virar o mundo de pernas para o ar. Quem tinha as pernas fora do devido lugar ou, pelo menos, o cérebro em tal condição, como o Presidente da República, parece não ter entendido as coisas direito. Mas não é o meu caso, nem dos distintos leitores deste blog, certamente. Na Itália, o mundo já está virado. Na Suécia e na Coreia do Sul, nem tanto. A esta altura dos acontecimentos, apesar da imprevisibilidade da pandemia, o Brasil ao que tudo indica vai, malgrado nosso, se achegar ao modo italiano e não ao escandinavo ou oriental. E entre tantos prejuízos, seja de vidas, de empregos, de credibilidades, de atividades econômicas, há um que talvez seja o mais dramático: o das escolhas forçosas que as equipes de saúde terão que fazer para decidir quais pacientes receberão as terapias necessárias, como é o caso dos ventiladores mecânicos, entre outras, e quais não terão tal direito, simplesmente porque não haverá equipamentos suficientes para todos. A situação italiana prima pela tragédia, mas pelo menos suscitou a elaboração de recomendações éticas para admissão a tratamentos intensivos, ou sua negativa, nas condições excepcionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis como se vê agora, conforme documento emitido pela Società Italiana di Anestesia Analgesia Rianimazione e Terapia Intensiva (Siaarti). Dramáticas escolhas de Sophia, sem dúvida, que ofereço agora aos meus leitores em tradução amadorística, mas sem dúvida, melhor do que nada. Nada indica que aqui em nossa cidade as coisas sigam de maneira diferente disso… Continue Lendo “Escolhas forçosas…”

Um Doutor que dispensa o pedestal

Por estes dias, Drauzio Varela ocupou aquilo que na internet, em língua gringa, chamam de Trend Topics (Trem de Trópicos, como é mesmo?). Ele entrevistou Suzy, uma mulher transgênero, dentro de uma penitenciária e ao final, ao saber que a mesma não recebia visitas há alguns anos, a abraçou fortemente, na frente das câmeras. Que solidão! – exclamou então. Numa terra repleta de gestos trogloditas e inconsequentes foi realmente um consolo ter assistido algo assim. E a internet explodiu – para o bem desta vez – coisa rara de acontecer ultimamente neste pobre país. Seria normal, se não fosse exceção, absoluta, por sinal. Eu também me senti feliz e gratificado. Gosto de Drauzio, de sua figura humana, de seu jeito de ser, das coisas que faz e fala, de sua boa e suave militância – e não é de hoje. Continue Lendo “Um Doutor que dispensa o pedestal”

Saúde no DF: o Carnaval acabou. E agora?

Não, não vou falar de doenças sexualmente transmissíveis; nem de coronavírus, intoxicação alcoólica, gravidez indesejada ou traumatismos provocados pela ação da polícia ou de gangs carnavalescas. Nada disso. Vou recordar aqui, mais uma vez, algumas das verdadeiras dívidas históricas, que entra carnaval, acaba carnaval; entra década, sai década; entra governo, sai governo, persistem no cenário de nossa cidade. Falo de dívidas sanitárias, porque aqui o espaço (e a minha competência) são pequenos para abordar com algum siso tudo que precisa. Vamos a elas, que estão virando um verdadeira mantra aqui no blog. Mas é preciso insistir, por serem coisas essenciais na saúde pública de nossa cidade, para as quais este governo (e justiça seja feita, os anteriores também) não parecem estar “nem aí”. Continue Lendo “Saúde no DF: o Carnaval acabou. E agora?”