Viagens ao Brasil-real

No século XIX foram marcantes as viagens de europeus pelo Brasil, estimulados pelo exotismo de nossa terra e pelas facilidades então abertas pela abertura do país às chamadas “nações amigas”. Na época, Saint-Hillaire, Langsdorff, Burton, Von Martius e muitos outros narraram aos seus compatriotas ávidos de informações suas observações sobre aquele mundo ignoto, em tons que variavam do maravilhado ao perplexo. A era das viagens ao Brasil, entretanto, não acabou. Eu mesmo tenho feito algumas, por Minas Gerais e também por Goiás, passando por lugares tão variados como Andrequicé, São João da Aliança, Serro, Niquelândia, São Gonçalo do Rio Preto, Vila Propício, Senador Modestino Gonçalves, Forte, Itamarandiba, Cavalcanti, Capelinha, Muquem, Araçuaí, Padre Bernardo, Itacambira, além de outras comarcas remotas e pouco conhecidas. Conto agora a vocês uma parte do que vi e senti, no que poderia chamar de autênticas viagens ao “Brasil-Real”. Continue Lendo “Viagens ao Brasil-real”

Cultura organizacional e saúde

Leio nos jornais a notícia que já parece fazer parte da paisagem: um homem com uma faca enterrada no tórax teve que esperar quase 48 horas para ser operado em um dos hospitais do DF. Hospital público, no caso, mas poderia ser também privado. Coisas assim não são exclusivas do SUS. Se procurarmos bem, é possível encontrar um feixe de monstruosidades deste tipo também nos hospitais com nome de santa que existem por ai. Mas o certo é que ninguém fala das inúmeras vidas que são salvas diariamente – e não são poucas! – nos hospitais do DF, tanto públicos como privados. Algo assim se aplica também, segundo pesquisas recentes, à divulgação de fake news maliciosas (existiria uma variedade “do bem”?), capazes de circular mais rápida e eficazmente do que as notícias realmente verdadeiras de utilidade pública. Assim funciona a humanidade. Mas é preciso prestar atenção nos contextos. Por exemplo, naquele cartaz habitual na entrada nos serviços de saúde que ameaça “maltratar funcionário público é crime”. Essa turma é realmente “maltratada”? Com frequência? Acredito que sim, mas não vejo preocupação idêntica e recíproca quando a questão é “maltratar usuários”, que também é um evento frequente. Internamente, nos serviços de saúde, há uma história contumaz: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição corre o risco de vir a ser da moça do cafezinho. Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”) ou então a “herança maldita” que receberam. Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece mesmo entre os japoneses, eita povo bárbaro! É cultural, eu diria… Mas afinal, que cultura é essa? Continue Lendo “Cultura organizacional e saúde”

Prescrição por enfermeira(o): sim ou não?

Parece que a moda de dar um passo à frente e dois para trás pegou pra valer no Brasil. No Planalto isso acontece quase todo dia, é bem verdade que com preferência pelos passos em pujante marcha a ré. Aqui no DF a Secretaria de Saúde baixou portaria em janeiro pp. permitindo que as enfermeiras (e seus colegas masculinos) pudessem prescrever alguns medicamentos nas unidades de saúde – um avanço, sem dúvida. Um mês depois, todavia, mudou de ideia intempestivamente e revogou o dispositivo, alegando a necessidade de fazer estudos mais aprofundados. Tudo bem, mas seria de se esperar que tais estudos (seriam realmente complexos e herméticos?) já tivessem sido executados quando da publicação da portaria em janeiro. Mas tal não foi o caso. E no resto do mundo, dito civilizado, como acontece? No Reino Unido, Estados Unidos e Canadá, por exemplo, isso já é um dever de tais profissionais, que ficam assim mais gabaritados a assistir de forma plena os pacientes. Organismos internacionais como a OMS e seu ramo para as Américas, a OPAS, têm defendido uma “prática avançada da enfermagem”, na qual estão previstas as prescrições de exames e de medicamentos. Continue Lendo “Prescrição por enfermeira(o): sim ou não?”

No DF: o SUS que dá certo (e por quê?)

Publiquei há poucos dias um post aqui no blog, no qual chamei atenção dos leitores para aqueles anônimos e modestos personagens, a quem denominei de “Heróis das Quebradas”, que carregam nas costas, no dia a dia, as pontas das cordas do sistema de saúde do DF. Ainda quero falar deles, agora para tentar entender melhor o que significa aquele “dar certo” que coloquei no título da matéria. Na ocasião, minha abordagem foi superficial, pois apenas comentei, assim mesmo de passagem, cerca de duas dezenas de matérias recolhidas no site da SES-DF durante a primeira metade do mês de fevereiro do corrente ano. Mas há muito mais a dizer sobre tal tema, sem dúvida. Este “SUS que dá certo” se refere a conquistas e sacadas de que se orgulhariam ingleses, canadenses e portugueses, por exemplo, cujos países possuem sistemas de saúde realmente bem estruturados. E material bem mais farto e sistematizado sobre isso é o relatório da Mostra de Experiências realizada em 2017 pela SES-DF, reunindo variadas práticas de saúde originadas das unidades ambulatoriais, hospitalares e complementares, além de instituições parceiras e associadas, em nossa cidade. Vale a pena voltar ao assunto, mesmo decorridos mais de dois anos e tendo feito comentários sobre o evento em duas ocasiões anteriores. Mas hoje quero acrescentar um aditivo, que é o seguinte: por que deu (e dá) certo? Continue Lendo “No DF: o SUS que dá certo (e por quê?)”

Os Heróis das Quebradas e o SUS que dá certo

Os livros de história falam sempre dos grandes heróis. Dos Alexandres, dos Quixotes, dos Napoleões, dos Caxias, dos Oswaldo Cruz, dos Churchills e tantos outros. Sancho Pança não costuma ser lembrado… Aqueles lá, os ilustres, são importantes, mas suas vitórias não seriam possíveis se abaixo – ou por detrás – deles não existisse uma legião de gente humilde e anônima. É estes que eu chamo de “Heróis das Quebradas”, pequenos, mas totalmente insubstituíveis! E eles são importantes na saúde também. Nem sempre a marca do que fazem aparece e ganha destaque, porque tem sempre um “grande-herói”, notório e celebrado midiaticamente, para receber as comendas da vitória. Pensando nisso, fiz um pequeno esforço para encontrar alguma “marca dos pequenos heróis” nas ações de saúde, aqui no DF, indo procurar na seção de notícias da SES-DF o possível relato desses feitos. Para tanto, busquei aquilo que se faz nas unidades de Saúde da Família e nos Centos de Saúde da periferia, nos hospitais, nos serviços de vigilância, nos laboratório e outros mais – não nos gabinetes refrigerados, por certo. Levantei apenas a primeira quinzena do mês de fevereiro de 2020, para ter uma ideia geral. Primeira constatação: de mais de 70 notícias, apenas 27 diziam respeito a realizações das (centenas) unidades de prestação de serviços diretos ao público do nosso sistema de saúde. Mas ainda assim havia muita coisa relevante ali… Continue Lendo “Os Heróis das Quebradas e o SUS que dá certo”

Renato Maia: ter saúde é ter projetos

Eu conheci Renato Maia anos atrás, primeiro como colega de Hospital Universitário, depois como paciente seu. Algo nos unia, isso eu descobri logo de cara. Poderia ser a nossa formação na UFMG, ou talvez a nossa mineiridade comum; quem sabe a sua raiz em Uberlândia, onde eu vivi por alguns anos, embora sem conhecê-lo de lá. Mas de toda forma me chamou logo atenção seu jeito de ser, humano, atencioso, aquela pessoa que olha o interlocutor nos olhos e nunca o interrompe. Quando falava, era como se pedisse licença para tanto. Seu interrogatório clínico era primoroso, associando profunda especulação de sintomas com uma interação delicada a respeito da vida no dia a dia, se colocando de igual para igual com seu paciente. Tinha para todos um raro olhar atento e compassivo, como em muito poucos se vê. Como médico e líder na área de Geriatria, ganhou projeção nacional e reconhecimento intenso por parte daqueles que com ele conviveram profissionalmente. Mas era, essencialmente, uma pessoa simples, muito simples. Por onde andou, captou sutilmente em torno de si simpatia, respeito, devoção, seja de seus pacientes ou dos demais que com ele conviveram. Hoje Renato partiu depois de passar por doença sofrida e prolongada, que ele suportou com fibra e coragem, apesar de ter perdido progressivamente os movimentos de todo o corpo e depender de cadeira de rodas e cuidados permanentes há alguns anos. Mesmo assim não parou de clinicar, estudar, fazer palestras, se envolver em novos projetos. Tenho uma frase que para mim representa um símbolo existencial. É de René Dubos, médico e bioquímico francês, ganhador do Prêmio Nobel na década de 60: “ter saúde é ter projetos”. Vejo que a pessoa especial que foi Renato Maia, neste aspecto, longe de ter morrido doente e incapacitado, sempre esteve de pé e muito ativo, portador de projetos que era, até a sua última hora entre nós. Eis uma grande perda para Brasília.

 

Por uma Saúde baseada em valor(es)

Todo mundo sabe. No SUS e nas questões de saúde em geral tudo é tratado com base em números. O que importa são quantidades, seja de consultas, exames, horas trabalhadas, leitos ocupados, altas concedidas, recursos transferidos, pagamentos de serviços – seja lá o que for. Mas existem outras maneiras de agir, referendada por teorias contemporâneas gerenciais e de relações de trabalho, que distinguem entre o que é meramente “volume” e outra acepção, de fundo qualitativo, ou seja, do que representa “valor”. Seria possível falar, então, em uma “saúde baseada em valor”, como modelo de prestação de cuidados de saúde no qual os prestadores, incluindo as instituições, empresas, profissionais e servidores de maneira geral, são pagos na base dos resultados proporcionados aos pacientes, e não apenas em termos de quantidades, seja de consultas, de internações, de procedimentos ou custos. Mas isso pode ainda contar com uma dimensão especial, quando a definição do valor pago ou atribuído a procedimentos determinados ganha um sentido plural, de valores, que são os aspectos simbólicos pelos quais uma instituição se move: Ética; Comprometimento; Competência; Solidariedade; Trabalho em equipe; Humildade; Humanização. Continue Lendo “Por uma Saúde baseada em valor(es)”