Um paradoxo do SUS: quem defende não usa, quem usa não defende…

O professor da Faculdade de Medicina da USP, Mario Scheffer, que junto com Ligia Bahia (da UFRJ) atualmente empalma a defesa dos princípios da Reforma Sanitária, deixando pessoal da UERJ e da FIOCRUZ meio perdidos nas malhas de um discurso identitário radical e pouco sintonizado com a realidade do sistema de saúde, analisa o momento atual dos planos de saúde no Brasil (ver links ao final), como já o fez em relação aos dilemas da distribuição de médicos no Brasil. Ele lamenta, entre outras coisas, que muitos dos sanitaristas brasileiros (entre os quais estamos incluímos ele e eu) usam pouco o SUS, para si e familiares, dando preferência aos planos privados, apesar de experiências ruins com estes últimos. Realmente penso que  é a pura verdade. Não acredito, todavia, que isso possa ser um fator importante na atual derrocada do SUS, se não do sistema em si, mas das ideias que o sustentam. Mal comparando, talvez, é como se uma pessoa que se delicia com doces não pudesse defender o direito de diabéticos receberem insulina nas farmácias públicas; ou se um a abstêmio não conviesse concordar com os riscos do uso do álcool e demais drogas e defender políticas para tal problema. A meu ver, o buraco é (bem) mais embaixo. Ou alhures. Nas linhas seguintes exponho meu raciocínio sobre tal questão. Continue Lendo “Um paradoxo do SUS: quem defende não usa, quem usa não defende…”

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Oito mais oito, noves fora, zero…

Tenho sido bastante crítico em relação ao que se denomina no Brasil, impropriamente a meu ver, de “controle social em saúde”, mas em relação a esta 16ª Conferência Nacional de Saúde, realizada nesta última semana em Brasília, é preciso começar pelos elogios. Ela foi agraciada pela militância com o epíteto “8+8”, em homenagem ao grande evento de 1986, a Oitava CNS, que está na origem do SUS.  Seu grande feito é o de ter sido realizada apesar do momento obscurantista, antidemocrático e contra participativo que se vive no Brasil, devidamente impulsionado pelo bolsonarismo. Nisso estão de parabéns seus realizadores, representados pelo Conselho Nacional de Saúde, demais conselhos de saúde e entidades civis de todo o país. O Ministério da Saúde, no qual está inserido o Conselho Nacional de Saúde (embora seus militantes prefiram considerá-lo externo ou estranho ao mesmo) garantiu em seu orçamento os recursos, que certamente não foram poucos, para que o evento ocorresse – é bom lembrar. O Ministro da Saúde compareceu e foi profusamente vaiado na abertura do encontro, mas ao que tudo indica, o mesmo fez questão de provocar tal reação, com suas alusões à Venezuela, lava jato, prisão de Lula e outros temas semelhantes, sem dúvida pouco sintonizados e adequados ao momento.   A militância deve ter achado tal vaia o máximo, certamente arrolando isso como uma das “conquistas” do evento. Da mesma forma, o Ministro, como bom seguidor do ex-Capitão, talvez tenha encarado isso como ponto para si, pelo menos perante as milícias ideológicas governistas, um atestado de macheza e de destemor em enfrentar o segmento escolhido para ser responsável pelas mazelas do país, ou seja, a esquerda.  De minha parte, lamento, pois coisas assim não fazem parte das boas normas democráticas e assim se desperdiçou o que seria bom momento para debate, não para troca de hostilidades. Aliás, nisso, a egrégia plenária do “controle social em saúde” se equiparou, lamentavelmente, ao bolsonarismo mais “raiz”. Mas vamos ao que interessa… Continue Lendo “Oito mais oito, noves fora, zero…”

Como evoluiu a situação de saúde no DF nos últimos anos?

Em número especial da revista Ciência & Saúde Coletiva, conforme já divulgado neste blog  (ver link), especialistas da UnB, da UFG e da Codeplan-DF analisam a evolução da situação de saúde no Distrito Federal entre 2005 e 2017, comparando alguns indicadores com os da região Centro-Oeste e do país como um todo. Os números mostram que o DF apresenta melhoria na taxa de mortalidade infantil entre 2006 e 2016, de 18,3% para 10,3%, uma das menores do país. A detecção de AIDS apresentou tendência de queda (21,3%) no mesmo período, resultado também positivo quando comparado aos dados da região CO e do Brasil. Em relação tuberculose, constatou-se um dos menores coeficientes de incidência e mortalidade do país, bem abaixo da média nacional. Da mesma forma, na hanseníase ocorreu importante redução da taxa de detecção anual bem como de incapacidade. No caso da sífilis congênita em menores de um ano, ocorreu aumento nos últimos anos no Brasil, eCO, mas também no DF, com taxas de 2,56 e 4,7/1.000NV no período considerado. Qual a importância de tais informações? Veja a seguir. Continue Lendo “Como evoluiu a situação de saúde no DF nos últimos anos?”

Mais médicos, mais do mesmo?

Após desqualificar ideológica e tecnicamente os profissionais cubanos que trabalhavam no Brasil através do Programa Mais Médicos, levando à ruptura unilateral da cooperação técnica, o desgoverno Bolsonaro se deu conta da estupidez de tal medida e agora procura um jeito de consertar mais este seu mal feito. Assim, o Ministério da Saúde admite que existem mais de seis milhões de pessoas a descoberto em matéria de saúde no Brasil, em quase oitocentos municípios com altos índices de vulnerabilidade, e que elas deverão ter de volta sua assistência médica em Atenção Primária. É claro que não se fala em reparar a perda de quase um ano na assistência dessas pessoas. Desta vez, se vai priorizar a participação de médicos formados e habilitados, com registro em qualquer CRM do Brasil, bem como eventuais titulações de especialistas ou portadores residência médica em Medicina da Família e Comunidade. E aos cubanos, antes demonizados pelo ativismo ideológico bolsonarista, poderão finalmente entrar com pedido de autorização para morar no Brasil por dois anos, tempo que pode ser estendido de forma indeterminada, de forma a “atender ao interesse da política migratória nacional”, conforme ato assinado pelos notórios Sérgio Moro e Ernesto Araújo. Mas não para trabalhar como médicos, embora isso tivesse sido também cogitado. Continue Lendo “Mais médicos, mais do mesmo?”

De controle, controlismo, controlite e controlose

Os episódios recentes envolvendo os equívocos da Operação Lava Lato, graças às estrepolias de seus  fake-heroes Moro, Dalagnol e respectiva caterva, bem como aqueles atos de alguns promotores do DF, que resultaram em estorvos à gestão do Hospital de Criança de Brasília, além de muitos outros semelhantes que aqui e ali perturbam a boa gestão pública no Brasil, me fazem trazer de volta algumas reflexões que haviam me assaltado há algum tempo atrás. Lembram-se, por exemplo, a “auditoria” que o TCU fez nos aeroportos brasileiros por ocasião do apagão aéreo de alguns anos atrás? Suas excelências na época deitaram sólida peroração sobre rotas aéreas, riscos aeronáuticos, questões meteorológicas diversas etc, como se fossem pilotos experimentados ou engenheiros especializados em aviação. Mesmo que tenham contratado alguém com tal perfil para assessorá-los, isso não era de competência de um tribunal de CONTAS – é bom frisar a palavra chave dessa questão. Parece que não conseguiram perceber que o buraco, ou melhor, a terra estava bem mais em baixo e não lhes competia nada além de uma análise relativa ao emprego correto ou incorreto do dinheiro público. Continue Lendo “De controle, controlismo, controlite e controlose”

Será que este Governo pode “cometer” acertos?

Deste governo federal altamente eficiente em, digamos, errar o alvo de seu Golden Shower (ou, para os entendedores menos capciosos, urinar fora do local apropriado…), a produção de algum fato positivo é digna de menção. Este parece (por enquanto, pelo menos) ser o caso do anúncio das mudanças nos critérios de financiamento da atenção básica pelo SUS, anunciadas recentemente pelo Ministério da Saúde. A proposta é que o repasse de recursos aos municípios leve em conta também o quantitativo de pessoas cadastradas nas equipes de Saúde da Família, além do desempenho das mesmas, considerando ainda indicadores de qualidade da atenção. Além disso, espera-se contemplar com tal modelo aspectos como a vulnerabilidade dos usuários do sistema e a distância dos municípios em relação aos grandes centros. A discussão está começando e já gera polêmica. Alguns acham que ela compromete o princípio da universalidade do SUS; outros, que ela corrige distorções e servirá para aferir a real cobertura de tal modelo de atenção. Continue Lendo “Será que este Governo pode “cometer” acertos?”

O Saúde no DF tem jeito?

Tentar responder a pergunta acima pode deixar muita gente desanimada e pessimista… Com efeito, se observarmos as manchetes locais, sejam atuais ou de 10 ou mesmo 20 anos atrás, vamos encontrar o nosso sistema de saúde como personagem quase central, com menções sobre carências diversas, tais como, leitos hospitalares, medicamentos, pessoal, recursos financeiros etc. O mesmo nos dias de hoje. O atual governo já completou meio ano de vigência e, apesar das promessas mirabolantes de campanha, trouxe pouca novidade positiva ao cenário, assoberbado como está pela crise hospitalar, pelo déficit financeiro, pela sofreguidão corporativa, pela descrença generalizada da população, pela incapacidade de desenvolver planos reais de mudança no sistema. O mesmo, portanto, que em dias, meses (e anos) passados. Mas sempre caberá a indagação: será que isso tudo tem jeito? Não sucumbamos ao desânimo, entretanto. Experiências de outas cidades e países, além da palavra de especialistas, mostram sim, um caminho a seguir. Mas para isso é preciso ter decisão política e, acima de tudo, muita coragem para agir e fugir da situação de eterna acossada, a qual a SES-DF enfrenta a décadas. Vamos lá… Continue Lendo “O Saúde no DF tem jeito?”