A desorganização da saúde no DF em sua mais perfeita tradução

Vejo no Correio Braziliense de 18 de junho de 2019 que mulheres de todo o Distrito Federal e Entorno formaram imensa fila no HMIB, na L2 Sul, para se candidatar à instalação de um simples DIU, o Dispositivo Intrauterino, que os bons serviços de saúde mantêm disponíveis para clientela há décadas. A SES-DF anunciou a novidade (?) na semana anterior e isso fez com que centenas de pacientes passassem a madrugada em frente a unidade para conseguir atendimento. Gentilmente um funcionário explicou à reportagem do CB, sem se dar conta, talvez, da desfaçatez de suas palavras: “todas as mulheres que chegaram aqui no período da manhã serão atendidas. As demais devem aguardar atendimento no decorrer dos próximos dias”. Em outras palavras, ao invés de uma lógica ética e humanista, quem manda naquele pedaço é o relógio; ou o calendário. A SES não deixou por menos, “esclarecendo” que todas as mulheres que procurarem a unidade na manhã desta segunda serão acolhidas e avaliadas. Pergunta que não quer calar: só as que vierem pela manhã? E aquelas que virão na parte da tarde? Ou na terça, quarta, quinta ou na semana próxima? Resumo da ópera: isso não é fruto de nenhuma crise econômica, de licitação embargada, de maquinações da indústria farmacêutica, de greve de fornecedores ou de alguma herança maldita. É má gestão mesmo. Uma coisa assim, sem querer vulgarizar, é igual a uma lanchonete que não tem salgados para oferecer a seus clientes. Ou um açougue que não vende carne. Continue Lendo “A desorganização da saúde no DF em sua mais perfeita tradução”

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O sonho de Dom Bosco e a saúde em Brasília

Muito se fala até hoje no famoso sonho de Dom Bosco, no qual, supostamente, estaria contemplada uma antevisão de Brasília. Alguns acham que, embora tendo tal sonho existido de fato, ele foi trazido à luz de forma oportunista por assessores de JK, no afã de convencer a Igreja Católica, na figura do Cardeal Primaz do Brasil, Dom Carlos Motta, a apoiar a construção da nova capital, considerando ser o prelado um influente conservador, que apoiava na época a UDN de Carlos Lacerda, engajada em forte campanha contra a construção da cidade. Não deve ser por acaso que os Salesianos, congregação fundada por Dom Bosco, foram agraciados com substancial e já então valorizada gleba de terreno na W3 Sul, onde ergueram colégios e igreja. Mas na verdade, o tal sonho é um primor de imprecisão, ao descrever um sítio situado entre 15 e 30 graus de longitude, sem precisar se ao Sul ou ao Norte, e sem determinar a latitude, ou seja, que poderia se materializar em lugares tão diferentes como a América Central, o Norte da África, a Indochina, ao Norte. Ou então, ao Sul, numa faixa de terra onde estariam a Bolívia, parte do território brasileiro, todo o Sul da África e boa parte da Austrália (onde, aliás, uma capital planejada também foi construída). Mas o sonho do Santo erra mesmo é quando descreve uma “grande civilização, Terra Prometida, onde correrá leite e mel”, além do mais, de uma “riqueza inconcebível”. Certamente não foi aqui que isso veio a acontecer. Na saúde, inclusive.      Continue Lendo “O sonho de Dom Bosco e a saúde em Brasília”

Resolvendo a crise hospitalar no DF pelo método do Dr. Guillotin

A notícia é do dia 10 de junho de 2019, mas poderia ser de janeiro, fevereiro, março etc. De qualquer ano; de uma década atrás ou do século passado: tanto faz. O Correio Braziliense informa que a SES-DF  está fazendo restrições ao atendimento em hospitais públicos, “sem data para acabar”. Excluem-se da restrição “quem não corre risco de morte”, mas sabe-se lá quais serão os critérios para determinar isso. Em todo caso, a Secretaria orienta os pacientes a procurarem unidades básicas de saúde, sobre cujo funcionamento também pairam dúvidas: seu número é suficiente? Estariam abertas nas noites e finais de semana? Suas equipes estão capacitadas e seu equipamento completo? Não iriam, por sua vez, encaminhar os demandantes de volta para os hospitais? Diz ainda a notícia que ao menos seis hospitais, nos últimos dias, dispensaram pacientes com quadro de saúde considerado menos grave, mais uma vez sem definir exatamente o que é isso. É bom não esquecer que uma simples dor no peito pode ser um infarto grave em estágio inicial, que só pode ser confirmado após observação e exames. Tal procedimento, segundo o explicitado em nota oficial da SES-DF, visaria atender todos aqueles com risco de morte, “para não repetir casos recentes”. Aplica-se aí uma espécie de “Lei de Paulo Guedes”, semelhante àquela que tentam aplicar às aposentadorias, ou seja, deixar para agir quando a morte estiver próxima.  Na mesma matéria se lê que, em cinco meses de governo Ibaneis Rocha, foram exonerados cinco diretores de hospitais públicos, por motivo de “não apresentarem resultados”. Parece uma solução do tipo cortar a cabeça (ou outra parte do corpo) que esteja apresentando problemas. Ou de consertar o vazamento da torneira reparando o tampão da pia. Teriam jeito coisas assim? Já me detive sobre tal assunto, ou seja, da organização precária da rede pública no DF por diversas vezes aqui no blog (ver links ao final). Mas como o assunto não se esgota, entra governo sai governo, sou obrigado e retomar colocações anteriores, que continuam e continuarão valendo, sabe-se lá até quando. Continue Lendo “Resolvendo a crise hospitalar no DF pelo método do Dr. Guillotin”

Tirando o bode da sala…

 Leio na mídia do DF que a nossa egrégia Câmara Legislativa houve por bem cancelar a compra de automóveis para uso de alguns de seus deputados, que iria nos custar a bagatela de quase meio milhão de reais. A mesa diretora, porém, num acesso de racionalidade (ou de vergonha) vai destinar tal recurso para a aquisição de medicamentos para o Hospital de Base. Parece uma boa notícia, não é? Mas creio que o buraco fica mais abaixo. Em primeiro lugar, porque tal compra de veículos, por si só, já seria um escândalo – e isso nem parece estar em cogitação. Segundo, porque não é assim que se faz uma verdadeira política de medicamentos (aliás, nenhuma política!), com sobras daqui e dali, sem obedecer a um planejamento racional e sustentável. É mais um caso típico e anedótico de “bode na sala”, em que suas excelências tentam ocultar ou disfarçar uma mancada, fazendo pose de gente boa e responsável. Continue Lendo “Tirando o bode da sala…”

Conferências de Saúde (como a recente no DF): “mais do mesmo”, “nós participamos, eles decidem” ou aperfeiçoamento real da Democracia?

O Distrito Federal acaba de realizar, entre 5 e 7 de junho (2019), a sua Conferência de Saúde, a décima de uma série. Os números já não são tão expressivos quanto nas anteriores: cerca de duzentos participantes, embora fossem esperados mais de trezentos delegados, após uma dezena de etapas regionais.  Seja como for, é uma festa de democracia. Mas será que só uma ‘festa’ seria o bastante? Não seria o caso de discutir se tais eventos, previstos na legislação do SUS e celebrados em prosa e versos pela militância, estariam contribuindo concretamente não só para o desempenho do sistema, como da própria noção de participação social na saúde? Haveria outras e melhores maneiras de se fazer isso? Ou se deveria insistir na dinâmica do “mais do mesmo”?  Sem querer ser pessimista, ao contrário, tentando abrir novos caminhos para aquilo que se denomina no Brasil, equivocadamente, por sinal, de ‘controle social em saúde’, apresento neste texto algumas ideias sobre formas mais legítimas e profundas de participação social (o verdadeiro nome de tal processo), particularmente em relação às conferências de saúde.  Continue Lendo “Conferências de Saúde (como a recente no DF): “mais do mesmo”, “nós participamos, eles decidem” ou aperfeiçoamento real da Democracia?”

Atenção Básica no DF: ilhas de tranquilidade em oceano de tormenta

Por mais que isso incomode os aficionados por grandes novidades, a maior inovação em termos da organização de sistemas de saúde já vai completar um século de existência e há pelo menos 70 anos está na base do sucesso dos sistemas de saúde que realmente fazem a diferença no mundo. Refiro-me à Atenção Primária à Saúde (APS), que no Brasil é também chamada de Atenção Básica (AB), tendo sua expressão corporificada na Estratégia de Saúde da Família. Ela vem dando certo em países tão diferentes como Reino Unido e Canadá; na Escandinávia, bem como em remotos e pobres rincões da África. Em Cuba também (mas, atenção: não é coisa de comunistas!). Nestes lugares, a aplicação de tal “novidade” gerou sistemas de saúde mais equitativos, eficientes, produtores de benefícios reais para as populações e muito bem aceitos por elas. O Brasil aderiu um tanto tardiamente, com a referida Saúde da Família (SF), mas mesmo assim os resultados obtidos são notáveis, conforme atesta a literatura especializada internacional. E aqui no DF, como andam as coisas? Continue Lendo “Atenção Básica no DF: ilhas de tranquilidade em oceano de tormenta”

No DF: controle da dengue e cultura organizacional

Leio nos jornais locais que o funcionário da SES-DF responsável pelo controle da dengue, ou pelo menos pelas operações de “fumacê” foi destituído de suas funções, aparentemente devido aos maus resultados obtidos com seu trabalho. Dias antes foi a vez da diretora do Hospital de Sobradinho, sobre a qual a gentil manifestação do Governador foi, textualmente “ou ela sai ou cai o secretário”.  Como se vê, aquele interessante estilo “deixa que eu chuto”, do qual tem ser observado presença marcante no Palácio do Planalto, já subiu o Eixo Monumental e alcançou, gloriosamente, também o Buriti, pouco mais de um km acima. Trata-se de uma história de longo curso na nessa curiosa civilização subequatorial que é o nosso país: o mandatário culpa o subordinado e o subordinado dirige a culpa para mais abaixo, de tal forma que a culpa de tudo o que acontece de ruim na repartição possa vir a ser da moça do cafezinho. Ah! Enquanto isso todos culpam o governo – qualquer governo – e da mesma forma os governos culpam os cidadãos (“por que raios foram votar na gente?”). Uma coisa é certa: ninguém se assume diretamente culpado. Aquela história de ministros se suicidando de vergonha em frente a câmeras de TV só acontece entre os japoneses mesmo, aquele povo bárbaro! Continue Lendo “No DF: controle da dengue e cultura organizacional”