Um Doutor que dispensa o pedestal

Por estes dias, Drauzio Varela ocupou aquilo que na internet, em língua gringa, chamam de Trend Topics (Trem de Trópicos, como é mesmo?). Ele entrevistou Suzy, uma mulher transgênero, dentro de uma penitenciária e ao final, ao saber que a mesma não recebia visitas há alguns anos, a abraçou fortemente, na frente das câmeras. Que solidão! – exclamou então. Numa terra repleta de gestos trogloditas e inconsequentes foi realmente um consolo ter assistido algo assim. E a internet explodiu – para o bem desta vez – coisa rara de acontecer ultimamente neste pobre país. Seria normal, se não fosse exceção, absoluta, por sinal. Eu também me senti feliz e gratificado. Gosto de Drauzio, de sua figura humana, de seu jeito de ser, das coisas que faz e fala, de sua boa e suave militância – e não é de hoje.

Eu tive a chance de estar diretamente com ele, uma vez, há quase 20 anos. Ele veio a Brasília para o lançamento de seu livro Estação Carandiru, fazendo também uma palestra sobre seu trabalho em penitenciárias. Aproveitei, durante o debate, para indagar dele se não se sentia desanimado com o pouco impacto social de sua causa. Ele me contestou dizendo que infelizmente não era uma “causa” aquilo que o movia. Não tinha pretensões a tanto. Apenas gostava de estar com aquelas pessoas cativas e ouvir suas histórias. Estava ali como escritor e curioso, nada mais. É claro que tal resposta me surpreendeu, pois julgava estar diante de alguém largamente ligado a uma causa humanitária. Como poucos, aliás. Mas depois compreendi que sua renúncia ao estatuto de benfeitor, ou algo assim, era apenas reconhecimento de suas limitações como médico e mesmo como cidadão. Uma atitude tão honesta como despretensiosa. Mas uma coisa era certa e continua sendo: Drauzio Varela fez mais por aquelas pessoas do que muitos que fazem disso profissão ou mesmo missão. Eu que já o apreciava, passei a admirar de verdade.

Pouco depois, em uma reunião do Colegiado do Curso de Medicina da Universidade de Brasília, do qual eu era membro efetivo, tive oportunidade de sugerir o nome de Drauzio para proferir a aula inaugural do curso naquele ano. Os colegas, ou pelo menos alguns deles, me olharam com cara de total espanto, com se eu fosse um ET ou algo assim: “Quem? Aquele cara que aparece no Fantástico? Você acha que isso seria adequado para a formação de nossos futuros médicos”?

Isso aconteceu há quase duas décadas, mas não duvido que o preconceito e tal visão obtusa ainda vigorem por lá. Eu, felizmente, estou fora disso desde 2003, quando me aposentei.

Drauzio Varela exerce um papel fundamental na mídia atual com ampla repercussão na sociedade. Com efeito, mesmo correndo o risco de usar uma palavra, digamos, perigosa, eu o considero um grande vulgarizador – mas explico. Vulgarizar tem também um sentido positivo. Vem do latim vulgus, que significa simplesmente povo ou a plebe em geral. Sua raiz está tanto na palavra folclore (do alemão volk), como em vulgar, aqui uma expressão pejorativa. Como as palavras em geral, adapta-se a variadas conotações. Assim, ao dizer que Drauzio vulgariza, refiro-me a algo de muito nobreza: levar até os leigos, o povo, o conhecimento que de outra maneira estaria restrito às camadas intelectualizadas. E é isso que ela faz na televisão, há anos, como muito competência e consciência, diga-se de passagem.

A reação de alguns professores da Universidade, infelizmente, tem respaldo em atitudes elitistas, que reservam aos detentores do saber formal o monopólio do esclarecimento e da informação – em sua própria linguagem não na do povo que deve ser esclarecido. Não é à toa que em uma boa conversa de médicos e doutores em geral, um dos tais “leigos” que passe por perto não alcançará nada, ou quase nada. Assim era nos tempos da missa em latim, que continua sendo estimada por muitos, ainda nos dias de hoje.

Drauzio conta com tanta simpatia popular, e mesmo entre boa parte da intelectualidade e da imprensa, que alguém mais afoito – e encontrando eco – já cogitou de seu nome para possível candidato a Presidente da República. Mas, sinceramente, penso que isso é uma ideia estapafúrdia. Caso se concretize, perderemos o esclarecedor competente das verdades científicas e em troca não ganharemos um político bem-sucedido. Aliás, Drauzio Varela é bom demais para fazer a famosa “política como ela é”, com seus jogos de cena, tramoias e trapaças diversas. Prejuízo duplo, já se viu, se tal mosca azul o picar.

O melhor que podemos desejar para Drauzio é que ele continue fazendo o que faz há tantos anos, com o brilho e a credibilidade de sempre, O Brasil precisa de gente assim, portadora da confiança que Drauzio Varela inspira. Ele não precisa e até recusa pedestais e Olimpos particulares, representando a pá de cal na histórica arrogância médica.

Longa vida a Drauzio Varela. Que ele continue nos abraçando com seu saber, sua simplicidade e sua inclinação humanista.

 

 

2 respostas para “Um Doutor que dispensa o pedestal”

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