Saúde, fake-news & fake-people

Um dia, em pleno 1938, Orson Welles colocou em pânico a população americana com um programa de rádio no qual anunciava a invasão da terra pelos marcianos. Autêntica fake news, potencializada pela ingenuidade, pelo ambiente conspiratório e pela falta de informação da população. Hoje achamos graça disso, apenas uma brincadeira inocente se comparada ao fenômeno assustador que se vê no Brasil e em toda parte. Assim, um dia desses, li matéria da Folha de São Paulo (ver link ao final), a respeito dos mitos sobre saúde espalhados pelas redes sociais, checando e argumentando sobre sua veracidade. Por via das dúvidas – e de forma irônica – alerta os leitores logo ao início da matéria: “não repasse esta mensagem a seus amigos e familiares”, pois, afinal sabe-se lá até onde chega a credulidade (em combinação com a irresponsabilidade…) humana. Os tais mitos dizem respeito a coisas alarmistas, inusitadas, espetaculares, escatológicas, que geralmente se encerram encarecendo que o conteúdo seja passado adiante – para o bem de todos, naturalmente… Entre muitas outras, a área da saúde parece ser favorita.

Assim, divulgam-se coisas como se proteger de um infarto do miocárdio através da tosse provocada; saber dos ingredientes naturais que de fato curam o câncer; do uso da farinha de trigo em queimaduras; das precauções quanto a ”ovos artificiais” produzidos na China; das vantagens do sal mineral veterinário sobre o sal de cozinha que se compra nos supermercados; dos riscos de se usar vacinas e das vantagens da homeopatia na prevenção das doenças infecciosas da infância; do novo medicamento milagroso contra  artrose (inclusive usando falsa e descaradamente o nome de Drauzio Varela como seu propagandista, algo que já foi negado taxativamente pelo mesmo) – e assim por diante

O que está por trás de tais notícias falsas ou falaciosas, que parecem ter atingindo status verdadeiramente epidêmico nos dias atuais? Haveria algum tipo de “vacina” contra isso?Por certo, não seria um fenômeno brasileiro, como o carnaval ou a ascensão evangélica através das igrejas-negócio. Mas o certo é que entre nós mostrou seu potencial tóxico, por exemplo, com o resultado das eleições de 1918. Aliás, não é por acaso que o indivíduo (e respectiva família) que ocupam a Presidência da República, já se declararam totalmente contrários à regulação das redes sociais, segundo seu membro zero-zero, por ser “favorável à liberdade de expressão”. Como se sabe, as recentes eleições no Brasil, foram decididas, de forma inédita, pela combinação exótica entre a veiculação de notícias falsas espalhadas roboticamente e uma facada em momento estratégico, embora não no sítio corporal almejado pelo aloprado que a desferiu.

Os especialistas apontam muitas causas para o problema, quase todas ligadas a uma motivação definida, particularmente no campo político e ideológico. Mas eu, particularmente, penso que o fenômeno tem também outras raízes, calcadas naquilo que um adágio popular tradicional denomina de “espírito de porco”, embora isso não faça justiça aos pacíficos suínos. Poderia ser uma negação daquilo que Rousseau e outros pensadores consideram a respeito da suposta bondade (ou, digamos, da neutralidade) que o ser humano traz consigo ao nascer, sendo depois corrompido pela sociedade. Pode ser, mas o grau de maldade e irresponsabilidade que algumas dessas falsidades carregam não parecem vir de nenhuma pressão ou práxis social, e sim – muito mais – de mentes dementes, deturpadas, delinquentes e delirantes. Tal é o caso da acusação feita a Marielle (por uma desembargadora!) de que a mesma era mancomunada com a bandidagem do Rio, da mesma forma que uma criança morta pela política na mesma triste-cidade, foi mostrada, em foto falsa, como portadora de um fuzil. Sem deixar de lado as informações falaciosas e deturpadas sobre efeitos colaterais das vacinas ou da recomendação de mamadeiras infantis de formato fálico.

Este meu raciocínio de certa forma se alinha com a antológica expressão de Umberto Eco, a respeito da voz conferida pela internet aos imbecis de maneira geral, fazendo com que o que era apena conversa de botequim assumisse foros de verdade irrefutável, transformando eventuais divergências em questões de vida ou morte.

Mas penso que é mais do que simples imbecilidade. Devo dizer ainda que a espécie de gente que produz este tipo de coisa é do mesmo estofo de quem comandou campos nazistas de extermínio ou de quem diz que vai “metralhar” seus adversários políticos, ou “mirar na cabecinha” de quem for (apenas) suspeito de algum crime; aqueles que acham que Paulo Freire não passa de um “energúmeno” e que dão a um astrólogo radicado em Virginia (USA) o estatuto de “filósofo”.

Mas nem sempre é preciso frequentar as chamadas redes sociais para se ter acesso a tais notícias malsãs. Ou pelo menos, de notícias que parecem ter tais características, como as seguintes: esta unidade estará fechada por motivo de falecimento da sogra da funcionária “X”; o doutor fulano não atenderá hoje por ter sido convocado para uma cirurgia de urgência no hospital onde trabalha; não haverá expediente durante toda a semana porque haverá treinamento da equipe; mulheres interessadas em implantar o DIU deverão aguardar a próxima chamada, em julho do ano que vem; não serão realizados exames de Papanicolau durante o próximo mês por falta de espátulas de coleta; a limpeza não esta sendo realizada por motivo do vencimento e não renovação do contrato com a empresa terceirizada; as famílias deverão trazer alimentos para seus pacientes hospitalizados devido a não renovação do contrato com a empresa terceirizada; idem para roupas de cama e fraldas de adultos; o centro cirúrgico permanecerá fechado por tempo indefinido por motivo de goteiras; o expediente hoje se encerra ao meio dia (sem outras explicações); maltratar funcionário público é crime – e por aí vai.

Que nos desculpem os leitores, mas isso foi apenas uma pegadinha. As notícias do parágrafo acima são todas completamente verdadeiras, fazendo parte do dia a dia dos serviços de saúde. Não são fake news, infelizmente…

De toda forma, existem dicas sobre como diagnosticar (e não propagar) as “verdadeiras” fake news. Portanto, atenção para o seguinte:

  • Busque a fonte original
    • Faça uma busca na internet: muitos casos já foram desmentidos
    • Cheque a data: a “novidade” pode ser antiga
    • Leia a notícia inteira
    • Cheque o histórico de quem publicou
    • Se a notícia não tem fonte, não repasse

E uma última: fique esperto – se a informação veio daquele seu amigo que volta e meia posta em rede assuntos totalmente sem pé nem cabeça, desconfie! E, principalmente, não passe pra frente. Se for possível, bloqueie tal pessoa, mesmo que seja aquela sua velha  tiazinha, tão boazinha...

PS. Sobre a figura que ilustra esta matéria: boi voador, pode? Na internet, certamente que sim…

***
Leia a matéria completa:
• https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/07/quais-sao-os-mitos-de-saude-espalhados-pelas-redes-sociais.shtml

Uma resposta para “Saúde, fake-news & fake-people”

  1. Inaugurando 2020 com as costumeiras manifestações lúcidas e consistentes. Em se tratando de você, nada de “imprecionante”. Grande abraço.

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