Eu fico com a pureza da resposta das crianças…

O Hospital da Criança de Brasília (HCB) é personagem frequente de publicações neste blog. A maioria das vezes refletindo preocupações com os ataques e ameaças que a instituição tem recebido de alguns setores, hoje felizmente isolados, do Ministério Público do DF. Já falei muito sobre tal carga ideológica (desculpem usar esta palavra, mas ela não deve ser privilégio de certos indivíduos que só enxergam ideologia … nos outros). Vamos pular esta parte. A gestão da coisa pública por organizações sociais pode ser boa ou ruim e pode não servir para todos os casos. No caso do HCB, ela é boa e adequada à situação. Ponto final. Os pacientes, seja diretamente, seja através de suas mães e pais o confirmam diuturnamente. Eu quero falar aqui da festa do oitavo ano da instalação do hospital em parceria com a SES-DF, realizada no último dia 22 de novembro, na qual estive presente. Para dizer em poucas palavras: nada de corredores entupidos, pintura descascada, pisos esburacados, cheiro de formol, pacientes malvestidos, almoxarifados desguarnecidos, goteiras, fios desencapados, roupa suja e comida trafegando nos mesmos elevadores, além de um ambiente impregnado de odores, visões e energias que traduzem sofrimento, aquelas coisas que os hospitais ditos “públicos” abundam em mostrar. Nada disso. Bem ao contrário, um ambiente humanizado, onde imperavam limpeza, alegria, luz, música, risos, aplausos, felicidade, esperança. Poderia ser assim em um hospital estatal? Por que não?

Eu lá estive por algumas horas. Embalado pela Pequena Serenata de Mozart, trazida por um grupo de músicos da Orquestra Sinfônica de Brasília, divertido pelas brincadeiras dos mestres e doutores da alegria, comovido com o olhar feliz das crianças e seus pais, impactado, especialmente, pela adolescente careca, em roupas hospitalares, mas irradiando também charme, alegria e esperança com seu batom carmim. Coisas assim não se vê todo dia.

Pena, mas isso não é, definitivamente, a rotina nos hospitais do SUS. Sarah não conta… Sarah é uma situação que talvez só encontre paralelo em Marte. Mas o HCB é diferente. Ele está aqui do nosso lado, é puramente SUS e atende os pacientes que lhe são encaminhados pela rede pública do DF e da região. Simples assim! E seus feitos estão à luz do dia, ao alcance dos olhos de quem quiser ver, bastando retirar as lentes opacas de certa ideologia.

Não estamos diante de uma panaceia. Funciona lá, pode não funcionar em outros lugares e serviços diversos. Mas cabe refletir: porque dá certo ali e falha alhures?

Em primeiro lugar, vontade política, sem dúvida. Não foram poucas as críticas, não só do Ministério Público, mas dos segmentos corporativo e sindical. Onde já se viu? Esta é uma parte do problema. De fato, não se vê algo assim, coisas “públicas” entregues a uma gestão “privada”, darem certo – o contrário disso é a regra, aqui no DF mesmo, em repetidas circunstâncias. Todo mundo sabe.

Polêmicas não faltam e não faltarão, principalmente entre sindicalistas, políticos da oposição, além daqueles setores ideológicos hard do Ministério Público, talvez vencidos, mas não convencidos. Mas é hora de encarar as coisas de frente, com clareza, sem preconceitos e sem ideologia – ou pelo menos dentro da boa ideologia da relevância da coisa pública e do interesse da sociedade. Eu acredito que isso seja possível. Afinal: quem não deseja autonomia, flexibilidade, transparência, interesse real no usuário, humanização, dignidade no atendimento e no trabalho dentro do serviço público?

E cabe acrescentar: por que não buscar a possibilidade de se escapar daquele verdadeiro “túnel de ferro” formado pelas leis de licitação e compras (L. 8666), “responsabilidade” (na verdade “travamento”) fiscal e estatuto do funcionário público (L. 8112), com seus cortejos de areia e pedras? Dentro de tal malha, os legítimos desejos dos cidadãos dificilmente se realizam…

Alguns dirão: a avidez do mercado tem que ser vigiada e controlada, mas o problema é que o Estado que temos não é capaz de fazer isso. E digo eu: já que o Deus Mercado é tão incontrolável, tornemos, pelo menos, o Estado mais consequente e responsável, ora!

E vamos parar de chorar pelo leite derramado…

Haverá certamente posicionamentos na contramão, alguns de fundo ideológico, outros de fundo corporativo, além daqueles derivados de má informação e mesmo má fé, que são ingredientes mal distribuídos na sociedade humana. Não se exclua da equação os contratos mal feitos e mal controlados por parte de quem deveria fazê-lo. Uma coisa é certa: ao usuário, que deveria ser o principal interessado na questão, o que realmente importa é a resolutividade, a pontualidade, a dignidade no atendimento, a boa prestação de serviços, enfim.

Eu vi, meus amigos, essas coisas acontecerem no Hospital da Criança de Brasília – e não é de hoje! Aliás, só não vê quem não quer. O título deste post, retirado da canção de Gonzaguinha, fala de coisas que vi nos olhares puros das crianças e de suas famílias presentes na festa, e também no dia a dia do HCB. A “resposta” de uns é representada pela cura, pelo desfecho feliz, pela dignidade e conforto que suas vidas ganham naquele lugar. Outro tipo de resposta também se pode ver e é muito expressivo: as cartas que mães e pais daquelas crianças fazem publicar, das quais copio alguns exemplos abaixo.

O que importa, realmente, é uma coisa simples e pura, como diz a canção: é a vida, é a vida, é a vida! Fora disso não há solução!

***

Alguns depoimentos sobre o HCB, de pacientes e familiares:

O HCB é uma escola, aqui aprendemos a dar importância às coisas mais simples. Cada dia uma nova experiência, uma luta, uma conquista, um sorriso, um abraço, um “oi”, Até mesmo um dia ruim, com as crianças e adolescentes de mau humor, nos mostra que a vida é uma dádiva e que temos que agradecer por ela.

Hospital de primeira linha, com atendimento inigualável. Praticamente todos trabalham com entusiasmo e gentileza; as crianças são sempre atendidas com amorosidade e o acolhimento das mesmas e de suas famílias segue o mesmo padrão do primeiro mundo.

Sinto que além de profissionalismo, há um sentimento de amor vibrando neste hospital.

Eu sinto uma emoção porque a equipe médica é ótima, descobri que meu menino tinha leucemia. Foi um baque na nossa vida, mas como a gente tem Deus na vida tudo se ajeita – e com essas pessoas boas que tem esse hospital. Obrigado, Hospital da Criança de Brasília, só Deus para pagar tudo que fizeram para meu filho.

Este lugar não é só um hospital, é um lugar onde as crianças querem vir e ficar aqui. Me faltam palavras para agradecer por 3esses cinco ano de acompanhamento. Minha filha é muito feliz aqui.

Não tenho nada a reclamar, somente a elogiar pela dedicação de todos que nos animam a continuar, a caminhar nesta jornada tão difícil. Chegamos aqui desanimados e saímos bastante otimistas e alegres, ao ver tantos amigos, se assim posso dizer.

Não sou paciente, sou irmã de paciente. Gosto muito de vir nas consultas de meu irmão, sou muito bem tratada por todos. Aqui vi muita humildade, felicidade e boa vontade. Amo todos! Obrigada!

Continuem com este trabalho lindo de vocês. E também continuem fazendo as crianças sorrirem, porque assim vocês só crescem.

Obrigada a todos os médicos, enfermeiros, as tias do lanche, as atendentes, as pessoas da limpeza. Aqui nós todos temos grandes amigos que chegam a ser nossa família.

Sinto que este hospital representa a esperança de inúmeros pais e crianças que sofrem dessa doença que me  parece desesperançosa. Sinto paz no coração e sinto a vida aqui dentro. Meu filho está curado de um tumor cerebral! Há luz no fim do túnel e este hospital representa isso: vida!

 

 

 

 

O Que É, o Que É?

Gonzaguinha

 

Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

E a vida
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão
Êh! Ôh!

E a vida
Ela é maravilha ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo

Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor

Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita

Viver
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita

 

2 respostas para “Eu fico com a pureza da resposta das crianças…”

  1. Meu amigo, mais uma vez, concordo plenamente consigo!
    Uma instituição exemplar, com uma gestão moderna, competente e, acima de tudo, honesta!
    Um abraço.

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