Plano de saúde para servidores do GDF, ou: o que fazemos para os outros não serve para nós…

O assunto já foi pautado aqui no blog. “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”, como disse George Orwel em “A Revolução dos Bichos”. Com efeito, se em um sistema de saúde que oferece cuidados como “direito de todos”, faz sentido que dentro desse coletivo “todos” haja privilégios para “alguns”? No Brasil, já nos anos 50, os funcionários dos Institutos Previdência Social já tinham realizado sua experiência de se afastar daquilo que eles próprios ofereciam “para todos” (os beneficiários da instituição), para criarem algo para si próprios, a famosa “Patronal”, que depois virou Geap e criou réplicas na maioria das empresas estatais e mesmo na administração direta. Pois bem, neste outubro de 2019, o Governo do Distrito Federal reitera a criação de um plano de saúde para atender até 250 mil servidores e seus familiares, nele incluídos não só todos os funcionários do Executivo, como das empresas estatais, policiais militares e os civis. Tal iniciativa terá estrutura semelhante à da Geap, citada acima, ou seja, de autogestão, na qual o “patrocinador” (ou seja, nós todos) paga uma parte da mensalidade e os associados, o restante.
Trata-se de reivindicação antiga de várias categorias do funcionalismo público local e o benefício tem como inspiração o que já acontece na Câmara Legislativa, instância na qual bem se sabe o interesse coletivo nem sempre vem em primeiro lugar. Vejo lideranças da esquerda local atacarem esta medida do governo, denunciando-a como privatizante – o que é verdade. Mas isso mas se daria apenas por realizar contratos com prestadores privados, o que eles de fato temem, esquecendo-se, porém, que se trata de concessão de benefícios públicos para um grupo específico da sociedade.

Agora cereja do bolo: o governo conta também com a possibilidade de começar a tirar do papel, neste ano, o Hospital do Servidor, o que, segundo uma autoridade do GDF “servirá para garantir mais economia aos cofres públicos”. Enfim, para os outros, os comuns, a plebe, a rede sucateada. Para estes privilegiados, um hospital próprio, bonitinho.

A notícia foi bem recebida pelos sindicatos, naturalmente, alegando que custear a saúde nos planos particulares está cada vez mais difícil para os funcionários públicos. Eles são radicalmente contra tudo que pareça privatização, mas pelo visto, tal medida, que concede benefício com dinheiro público para grupos específicos, não se enquadra em tal categoria.

Cumpre-se, assim, mais uma vez, a tradicional lei do “façam o que eu falo, mas não o que eu faço”.

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