Sobre “comunidade”: é preciso saber de que estamos falando…

Para nós que pertencemos ao campo da saúde coletiva ou a seus arredores, o termo “comunidade” é quase sagrado. Nada pode ser feito sem que ela esteja devidamente contemplada e valorizada. Perto dele, pessoas, famílias, grupos de indivíduos importam menos, principalmente quando está em jogo o desenvolvimento de propostas para a melhoria geral da saúde. Mas será que esta palavra tem o mesmo significado para todo mundo? Historicamente isso tem significado sempre a mesma coisa? Ou por outro lado, é necessário adicionar a ela alguns conceitos esclarecedores sobre seu verdadeiro significado? Ao falar de “comunidade, de forma muito genérica, não estaríamos esvaziando a palavra de sua importância conceitual e histórica? Trago aqui um artigo de Rogério da Costa, docente da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, intitulado “Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva”, que ajuda pensar sobre estes dilemas. O autor inicia falando de uma transmutação do conceito de “comunidade” em “redes sociais”, mudança que se origina da verdadeira explosão das comunidades virtuais, que seriam não apenas uma nova maneira de se “fazer sociedade”, mas também fazem pensar em estruturas dinâmicas de redes de comunicação, trazendo conceitos (alguns deles radicalmente novos) que devem ser conhecidos e esclarecidos, tais como, capital social, confiança e simpatia, redes (de computadores e comunitárias); inteligência coletiva. No meu entendimento, puxando o foco para a área da saúde, tal discussão tem cabimento e fornece algumas respostas, além de lançar perguntas novas, com implicações relevantes, particularmente na atenção primária.
O tema tem chamado a atenção de sociólogos, etnógrafos virtuais, ciberteóricos, especialistas em gestão do conhecimento e da informação, além de outros, gente percebe um novo cenário de “vertigem da interação coletiva”, ainda por ser compreendido de forma completa. Vêm daí expressões cada vez mais recorrentes. como “inteligência emergente” (Steven Johnson, 2001), “coletivos inteligentes” (Howard Rheingold, 2002), “cérebro global” (Heylighen et al., 1999), “sociedade da mente” (Marvin Minsk, 1997), “inteligência conectiva” (Derrick de Kerckhove, 1997), “redes inteligentes” (Albert Barabasi, 2002), “inteligência coletiva” (Pierre Lévy, 2002).
Seguem alguns conceitos apresentados no trabalho.
Comunidade
Embora alguns autores mais nostálgicos deplorem a falência, desgaste e perda de sentido de tal termo, vislumbra-se, todavia, focos de resistência em favor de sua pertinência como conceito, mesmo na sociedade capitalista individualizante. Mas o certo é que isso mudou de sentido. Zygmunt Bauman, por exemplo, analisa alguns conceitos em jogo no caso, tais como individualismo, liberdade, transitoriedade, cosmopolitismo, comunidade estética, segurança. Ele antevê uma oposição entre liberdade e comunidade, considerando esta última como “obrigação fraterna de partilhar as vantagens entre seus membros, independente do talento ou importância deles”. Para ele, os mais egoístas, aqueles que percebem o mundo pela ótica do mérito (que ele chama de cosmopolitas), não teriam nada a “ganhar com a bem-tecida rede de obrigações comunitárias, e muito que perder se forem capturados por ela”. Comunidade e liberdade seriam, portanto, conceitos em conflito: qualquer que seja a escolha, ganha-se alguma coisa e perde-se outra. Não ter comunidade significa não ter proteção; alcançar a comunidade, se isso ocorrer, poderá significar perder a liberdade.
Assim, para esse autor, a vida individual está envolta em riscos, e viver em liberdade significaria viver sem segurança, ao contrário de viver na comunidade, que seria o lugar da segurança, onde se formam os laços por proximidade local, parentesco, solidariedade de vizinhanças, além de relacionamentos consistentes.
Wellman & Berkowitz (1988) partem do princípio de que estamos associados em redes, mas por meio de comunidades de pessoas. Assim, enquanto a maioria das pessoas sabe de seus próprios laços comunitários, ao mesmo tempo acreditam que as outras não os têm. Ou seja, cada um possui uma visão clara da rede de relacionamentos à qual pertence, embora não seja possível perceber facilmente a rede à qual os outros pertencem.
É lembrado, também, que até os anos 60 se acreditava no “desaparecimento da comunidade”, pelo menos nas grandes cidades, explicada pelas mudanças associadas com a revolução industrial, conduzindo a novas formas de exploração, à ausência de laços comunitários e novas formas de patologia social, bem como à perda da identidade pessoal. Mas na contemporaneidade caberia indagar se as redes pessoais estariam realmente se esgotando tanto assim que os poucos laços restantes serviriam apenas de base para relações desconectadas e individualizadas, no lugar de servirem como fundação para comunidades mais extensas e integradas? Estudos mais atualizados, aliás, vieram a demonstrar que as comunidades pré-industriais não eram tão solidárias quanto se acreditava, sem tantas instâncias de suporte, redes sociais ou laços de parentesco consistentes, aliás, com predomínio de relações hierárquicas, laços de exploração especializados e divisões separando facções.
Em suma, o que as recentes análises sugerem é a necessidade de uma mudança no modo como se compreende o conceito de comunidade, com o surgimento de novas e mais complexas formas respectivas. De fato, se o foco são os laços sociais e os sistemas informais de troca de recursos, e não as pessoas vivendo em vizinhanças e pequenas cidades, surge uma imagem diferente das relações interpessoais, o que sem dúvida remete a uma transmutação do conceito de “comunidade” em “rede social”.
Assim, se solidariedade, vizinhança e parentesco eram aspectos predominantes quando se procurava definir uma comunidade, hoje eles são apenas alguns dentre os muitos padrões possíveis no âmbito das redes sociais. Há então novas formas e padrões estruturais alternativos que afetam o fluxo de recursos entre os membros de uma rede social, ou seja, são formas renovadas de associação, na complexidade do que se chama “rede social”, com variadas dimensões e fluxos de recursos entre inúmeros indivíduos distribuídos segundo padrões variáveis.
Capital Social
Derivado de tal mudança de perspectiva do conceito de “comunidade” para “redes sociais”, vários autores das ciências sociais passaram a investigar, desde os anos de 1990, o conceito empírico de capital social, noção que poderia ser entendida como: a capacidade de interação dos indivíduos, seu potencial para interagir com os que estão a sua volta e também com os que estão distantes e que podem ser acessados remotamente. Isso implica na capacidade de os indivíduos produzirem suas próprias redes, suas comunidades pessoais.
É preciso entender, assim, a coerência cultural e social interna na sociedade, o que inclui normas e valores que governam as interações entre as pessoas e as instituições. O papel dessas últimas, sejam escolas, empresas, clubes, igrejas, famílias, é o de funcionar como mediadoras da interação social, propagadoras de valores de integração, além de serem referência para as relações sociais. Compreender seu papel e influência numa comunidade faz parte do processo de avaliação do capital social, que basicamente equivale a confiança de que as pessoas mantêm em tal sistema. Assim, as instituições exercem um papel regulador e mediador de processos sociais, com variáveis micro, tais como sociabilidade, cooperação, reciprocidade, proatividade, confiança, respeito, simpatias. Importam, assim, de fato, as informações sobre o cotidiano das pessoas e sua implicação em associações locais e redes (capital social estrutural), sua confiança e aderência às normas (capital social cognitivo) e, igualmente, a ocorrência de ações coletivas (coesão social) – que seriam alguns indicadores básicos do capital social de uma comunidade.
Assim, relações sociais podem ser percebidas como “capital” quando o processo de crescimento econômico fica determinado não apenas pelos recursos naturais, infraestrutura e bens de consumo, bem como pelo dinheiro, mas também pelo modo como os atores econômicos interagem e se organizam para gerar crescimento e desenvolvimento. Isso também é uma riqueza, a ser explorada e capitalizada. Capital social, portanto, diz respeito também a recursos de outra natureza, tipo informações, ideias, apoios, que permeiam as relações entre indivíduos e instituições. São recursos que simulam tal expressão original, mas agora em âmbito social, na medida em que são acessíveis somente dentro e por meio dessas relações, diferente do que acontece com o capital físico (ferramentas, tecnologia) e humano (educação, habilidades), que são propriedades de indivíduos.
Simpatia e confiança
Fukuyama (1996) e Granovetter (2000) criticam a crença dos economistas que percebem a natureza humana como fundamentalmente egoísta. Isso resultaria num vazio de uma lógica humana, sugerindo-a como seres incultos, abstratos, sem história e sem diferença. Tal egoísmo poderia designar apenas alguns meios que o homem utiliza para satisfazer suas necessidades, sem deixar de lado outros meios possíveis, que podem ser, por exemplo, a generosidade, a hereditariedade, os costumes, os hábitos. Mas de acordo com Hume, a generosidade humana seria limitada por natureza, significando que o homem é muito menos egoísta do que parcial, pois a verdade é que o homem é sempre membro de um clã, de uma comunidade, o que reforça a ideia de que a essência do interesse particular não é o egoísmo, mas a parcialidade. Daí a necessidade dos contratos sociais como modo de limitação de um egoísmo supostamente “natural” dos homens.
Em relação às ditas simpatias, o problema seria outro, ou seja, o de integrá-las numa totalidade positiva, o que indica a necessidade de se afastar imagens abstratas e falsas da sociedade, definida de modo apenas negativo, mas sim de compreendê-la como um sistema positivo de empreendimentos inventados. Neste sentido, cabe à sociedade, integrar as simpatias, ou seja, fazer com que as mesmas ultrapassem sua contradição e sua parcialidade naturais, mediante estima, respeito e confiança, seus componentes legítimos. O desafio das tecnologias sociais seria, assim, o de “estender as simpatias”, para que seja possível formar grupos maiores do que aqueles envolvidos pela simpatia parcial, por meio de meios e artifícios que façam os homens estender suas simpatias para além de seu clã, família, vizinhança; para além daquilo que se configura ainda como parcialidade, ou seja, as “comunidades” em seu sentido mais tradicional.
Em suma, os sentimentos de estima, respeito e confiança são exemplos práticos que apontam para os meios de integração de nossa simpatia com as simpatias de outros. Conquistar a estima, o respeito e a confiança de um estranho significa trabalhar na construção de um laço afetivo mais amplo do que aquele de nossas parcialidades, sendo este o atributo mais importante, das instituições, às quais cabe não exatamente governar ou regular (as relações entre os homens), mas sim mobilizar suas tendências, integrando-as num todo maior, utilizando valores e normas.
Fica claro, então, que aspecto essencial para a consolidação, seja de comunidades pessoais ou redes sociais é o sentimento de confiança mútua que precisa existir em maior ou menor escala entre as pessoas, cuja construção estaria diretamente relacionada com a capacidade que cada um teria de entrar em relação com os outros, de perceber o outro e incluí-lo em seu universo de referência. Em outras palavras, reconhecer, no outro, suas habilidades, competências, conhecimentos, hábitos. Esta dinâmica do reconhecimento é com certeza uma das bases para a construção da confiança não apenas individual, mas coletiva. Redes sociais só podem ser construídas com base na confiança mútua disseminada entre os indivíduos. Isso pode se verificar em maior ou menor grau, mas de qualquer forma a confiança deve estar presente da forma a mais ampla possível. Sem dúvida, a confiança é uma dinâmica, apesar de muitos a considerarem como um estado.
Assim, como diz Fukuyama (1996, p.41) “o capital social é uma capacidade que decorre da prevalência de confiança numa sociedade ou em certas partes dessa sociedade” e não se deve esquecer que para se incrementar tais laços sociais é preciso investir na construção e no desenvolvimento de relações de confiança e isso requer, no mínimo, tempo disponível para os encontros e interações necessários. Sem esquecer que confiança é algo que se destrói mais facilmente do que se constrói, em processos cuja produção tem custos, em termos de investimento financeiro, tempo e esforço, o que se pode dizer da manutenção do capital social também.
Concluindo, para avaliar o capital social de um coletivo, é preciso compreender em que etapa ou estágio se encontra a negociação das pessoas naquele momento, se ele é precário, com instituições fracas e violência social, ou se ele é rico, com ações coletivas claras e nível de confiança elevado.
As redes digitais
As redes digitais representam, hoje, expressão dominante para a compreensão das novas formas de sociabilidade e ampliação do capital social. Já nos anos 90, Rheingold, em seu livro Comunidade Virtual (1996), percebeu que tais comunidades virtuais eram mais do que lugares onde as pessoas se encontravam, mas fundamentalmente meios para se atingir fins diversos, antecipando mesmo que “as mentes coletivas populares e seu impacto no mundo material podem tornar-se uma das questões tecnológicas mais surpreendentes da próxima década” (p.142).
Antes disso, ainda nos anos 70, Turoff prenunciava que a conferência por computador poderia fornecer aos grupos humanos uma forma de exercitarem a capacidade de ‘inteligência coletiva’, o que possibilitaria que um determinado grupo poderia exibir inteligência superior em relação a qualquer um de seus membros. Surge assim a ideia de que tais interconexões via web poderiam gerar novas formas de atividade coletiva ainda não conhecidas, agora centradas na difusão e troca de informações, conhecimentos, interesses etc.
Já havia alguém, como Rheingold (1996), que não só antecipou a emergência e a importância das referidas comunidades virtuais, mas também viu nelas alguma distorção, dada pelo previsível excesso de informação, ao mesmo tempo com escassos filtros de seleção de dados essenciais realmente úteis. Mas o mesmo autor já pôde vislumbrar, também, a existência de “contratos sociais entre grupos humanos – imensamente mais sofisticados, embora informais – que nos permitem agir como agentes inteligentes uns para os outros”, ou seja, surge a ideia de uma “mente ou inteligência coletiva”, capaz não apenas resolver problemas em grupo, mas também de atuar em função de indivíduos, em seu benefício. Em outras palavras, funcionar como uma autêntica enciclopédia viva ou verdadeiros filtros humanos inteligentes.
Surgem daí variados campos de conhecimento que vão sendo pouco a pouco explorados, como o da mensuração e cartografia a atividade coletiva por meios digitais; de construção de uma teoria das redes; de formulações matemáticas sobre uma teoria dita “do mundo pequeno”; de uma dinâmica coletiva em rede; sobre o papel que os nós especializados (hubs) desempenham nas redes em geral e no ciberespaço; da construção de uma “sociologia de afluência” na web, entre outros aspectos.
Pierre Lévy (2002) também traz contribuições a tal debate, defendendo as comunidades virtuais como fatores positivos na formação de inteligências coletivas e o papel das comunidades enquanto “filtros inteligentes” para lidar com o excesso de informação e como um mecanismo de abertura a visões culturais alternativas. Para este autor, uma comunidade virtual, quando convenientemente organizada, representa uma importante riqueza em termos de conhecimento distribuído, de capacidade de ação e de potência cooperativa.
Os autores concordam, ainda, que há muito ainda a aprender sobre a formação de redes sociais e a afluência maciça de ideias e informações por meio de associações humanas no ciberespaço. O que está claro, todavia, é que se está diante de um fenômeno que força os indivíduos a pensarem de maneira diferente daquela em que um dia eles se organizaram em grupos ou comunidades.
• Algumas possibilidades de aplicação no campo da saúde
Na saúde pública, tais discussões são naturalmente pertinentes, eis que as palavras comunidade, rede, vínculo, confiança, além de outras de mesmo naipe, fazem parte dos conceitos e das ações que são desenvolvidas no cotidiano das práticas, particularmente na atenção primária, como foco especial em tópicos como processo de trabalho, territórios, participação social, diagnóstico de saúde, etc, tanto em termos conceituais como operacionais.
No presente cenário, movediço por sinal, o que deveria importar é: mais do que viver em um lugar definido por coordenadas geográficas, as pessoas compartilham relações, que se traduzem em redes, articulações, simpatias, repulsas, laços etc. Aí, a noção de território se torna mais fluida e também mais complexa, já que tais interações se dão em âmbitos físicos e imateriais, alcançando famílias, grupos diversos, igrejas, instâncias de lazer, em espaços tão diversos como escolas, filas, agências diversas, igrejas, serviços governamentais, clubes, cadeias de produção, empregos.
Em tal ambientação, sistemas informais de trocas se fazem e se desfazem a cada momento e dentro deles o tema da saúde possui distinção especial. Quem nunca trocou informações uma receita de anti-hipertensivo, sobre um alimento “bom para diabetes”, sobre a dieta que “seca a barriga” em 15 dias, sobre aquele novo doutor que se distingue dos demais pela atenção que dá a seus pacientes na unidade de saúde? Que atire a primeira pedra (ou acione o primeiro clique…). Este tipo de assunto já há muito deixou de ser exclusivo das rodas de botequim, das filas de ônibus ou de conversas de calçada no final da tarde. Ele agora se faz presente através dos cliques e dos bips do whatsapp.
Em tal espaço ampliado, importa menos o território físico onde as pessoas vivem, e ganha importância o domínio, já quase universalizado, das relações que se estabelecem ente indivíduos e instituições de diversas naturezas, com o uso de alguma tecnologia de comunicação e informação, com os telefones móveis ocupando faixas próximas de 100% de utilização, mesmo entre os menos abonados. Escapam disso, mas apenas relativamente, as pessoas mais velhas, pois mesmo que não usem diretamente as tecnologias disponíveis, terão sempre filhos, netos, vizinhos a lhes disponibilizar a novidade.
Trabalhar “na comunidade” hoje, como devem fazê-lo não apenas os agentes comunitários de saúde, mas também os demais membros da equipe de atenção primária (enfermeiros, médicos, dentistas, técnicos, agentes de endemias, auxiliares), exige mais do que o simples domínio “personal” dos equipamentos disponíveis. Torna-se preciso compreender o universo no qual se está inserido, o mais das vezes, aliás, como mero consumidor-repetidor da massa de informações que todos recebem, a todo momento.
Surge então uma questão: poderiam os profissionais envolvidos com a saúde pública fazerem alguma diferença em tal quesito? Em outras palavras: tornarem-se capazes de utilizar a maçaroca de utensílios e de sinais que estão a seu redor para produzir valor real em seu trabalho? Seria demais exigir deles, também, um papel educativo em relação ao uso consciente e em benefício da saúde nas famigeradas “redes sociais”? Nos processos respectivos de capacitação, não seria o caso de se introduzir componentes afetivos e simbólicos, antes mesmo dos instrumentais, colocando em cena questões tão diversas como: sociabilidade, confiança, simpatia, cooperação, intercâmbio, solidariedade, compaixão, laços, vínculos?
Tudo isso não como componentes de uma agenda burocrática (pseudo)pedagógica, mas como itens de problematização e reflexão, em processos de ensino-aprendizado conduzidos por gente entranhada no assunto, como pessoas das ciências humanas (filosofia, antropologia, sociologia, por exemplo), e não por simples “lentes” (leitores), capacitados oferecer aos outros apenas o que já têm de sobra em si.
Nas relações com as pessoas que coabitam em tais “comunidades” (tomadas agora em sentido ampliado) caberia à equipe de saúde, quem sabe, oferecer contribuições e – e serem agentes ativos – a facilitar a superação de meras relações individualizadas on-line para uma verdadeira comunidade de usuários (e interessados em geral) de saúde extensamente integrada. Agir em rede, sim, é o caso, mas buscando superar o pandemônio informativo vulgar e massacrante, além dos objetivos comerciais (mal)ocultados do Facebook e seus congêneres.
Como realmente perscrutar o “capital social” que certamente vige, mesmo nos grupamentos humanos mais precariamente situados na escola social e econômica? Trata-se de compreender e apreender o modo como os atores sociais interagem e se organizam para gerar crescimento e qualidade de vida, ou seja, riqueza a ser conhecida, propagada e utilizada em benefício de seus reais produtores e do coletivo em geral. É preciso saber buscar, assim, recursos de variada natureza, como as informações, as ideias, as sintonias afetivas, presentes nas relações entre indivíduos e instituições. Não é bem esta a maneira como se atua tradicionalmente no campo da saúde, com o costumeiro foco na doença ou na sua prevenção, sem se incomodar com a fluidez e a complexidade dos reais processos do viver cotidiano.
Disso derivam as noções de “simpatia” e “confiança”, que também devem fazer parte do quadro de preocupações e atuação das equipes de atenção primária. Isso, entretanto, não se trata de algo que a equipe vai buscar do lado de fora das paredes de seu ambiente de trabalho; ao contrário, é algo que as implica e compromete diretamente. É preciso desenvolver, de fato, sentimentos de confiança mútua, entre pares e com os circunstantes, numa construção diretamente relacionada com a capacidade de entrar em relação e perceber o outro, de forma a incluí-lo no universo de referência que é o da equipe e também o “dos outros”. E é missão nobre, embora altamente complexa, reconhecer no outro habilidades, competências, conhecimentos, hábitos. Mas só assim se constrói de fato confiança individual e coletiva, e estes são os elementos essenciais de uma rede social verdadeira.
Neste sentido, uma tarefa social, mas que também compete aos profissionais de saúde, seria a de tentar realizar a “integração das simpatias”, fazendo com que as mesmas ultrapassem suas contradições naturais, tendo como antídotos o respeito e a confiança. A boa prática social seria, assim, “estender as simpatias” para grupos maiores do que aqueles envolvidos pela parcialidade inerente ao ser humano (na visão de Hume), estendendo as simpatias naturais para além do clã, da família, da vizinhança.
***
Assim, numa tentativa de sistematizar possibilidades de intervenção em um “trabalho com comunidades” dentro de tal nova agenda, embora isso possa ser percebido como “vulgarização”, poderiam ser lembradas alguns tópicos operacionais:
1. Estímulo ao uso consciente de redes sociais, mediante estratégias de problematização e reflexão, para os servidores públicos, mas também abertos à comunidade.
2. Utilização de grupos de whatsapp (ou de aplicativo semelhante) para interação entre Agentes Comunitários de Saúde, outros membros da equipe de Saúde da Família junto às pessoas adscritas, de forma associada às visitas domiciliares.
3. Acompanhamento específico, embora não exclusivo, de diabéticos, hipertensos, gestantes, e outros pacientes para os quais se possa contar com protocolos clínicos definidos, mediante utilização de grupos ou redes sociais informatizadas.
4. Utilização de tecnologias de informação para contatar pacientes em relação a: vacinações, aferição de uso de medicamentos, recalls, consultas, lembretes de saúde diversos, convocação de reuniões, alertas, divulgação de informações gerenciais e clínicas etc.
5. Inclusão temporária (adscrição) de pacientes de fora da área, com apoio específico das tecnologias de informação e comunicação relacionadas.
6. Uso das referidas tecnologias para inquéritos rápidos a respeito de condições de saúde, opiniões sobre serviços, inquéritos, elaboração de diagnósticos situacionais etc.
7. Utilização das tecnologias disponíveis de forma ampliada, sem deixar de ser rigorosa, em processos participativos locais (exemplos: definição sobre horários de funcionamento, satisfação geral com o atendimento, valoração de itens específicos dos serviços, aceitação de medidas emergenciais ou extraordinárias etc.)
8. Interação em rede de conjunto de unidades de atenção primária ou mesmo entre unidades de complexidade diferente, inclusive intersetorial.
9. Desenvolvimento de protocolos de acesso rápido para diferentes quesitos, de natureza, clínica, administrativa, epidemiológica, via redes sociais, grupos interativos, redes institucionais.

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Para conhecer o artigo aqui comentado na integra (inclusive com a bibliografia completa):

Abstract

COSTA, Rogério da. Por um novo conceito de comunidade: redes sociais, comunidades pessoais, inteligência coletiva. Interface (Botucatu) [online]. 2005, vol.9, n.17, pp.235-248. ISSN 1414-3283.  http://dx.doi.org/10.1590/S1414-32832005000200003.

Este texto trata basicamente da transmutação do conceito de “comunidade” em “redes sociais”. Esta mudança se deve em grande parte à explosão das comunidades virtuais no ciberespaço, fato que acabou gerando uma série de estudos não apenas sobre essa nova maneira de se fazer sociedade, mas igualmente sobre a estrutura dinâmica das redes de comunicação. No centro dessa transformação, conceitos como capital social, confiança e simpatia parcial são invocados para que possamos pensar as novas formas de associação que regulam a atividade humana em nossa época.

Keywords : redes de comunicação de computadores; redes comunitárias; inteligência coletiva.

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