Práticas alternativas, integrativas, complementares e não custa indagar: também efetivas?

Anuncia a SES-DF (ver link ao final) a comemoração dos 30 anos de um programa denominado “Farmácia Viva”, que associa a fitoterapia como opção adicional aos procedimentos terapêuticos já disponíveis na rede local de serviços públicos de saúde. Segundo a SES-DF, os medicamentos naturais de tal “Farmácia Viva” já beneficiaram mais de 300 mil pacientes. As plantas utilizadas são cultivadas em uma das unidades do sistema, no Riacho Fundo I, onde ocorrem os processos de plantio, colheita, triagem, secagem e extração química, após o que podem os produtos serem utilizados em forma acabada ou como matéria-prima para a produção de outros remédios. As ofertas atuais são de babosa, boldo, confrei, funcho, alecrim pimenta, guaco e erva baleeira, estando em testes uma nova planta, com suposto efeito nos estados de ansiedade, denominada “colônia”. Assim, duas dezenas de unidades de saúde, inclusive um hospital, já recebem esses medicamentos, que em 2018 chegaram a 25 mil unidades produzidas e distribuídas. Para retirar os remédios, é necessário receita de médico, enfermeiro, fisioterapeuta ou nutricionista – menos mal. Visto assim, de forma singela e até ufanista, parece ser uma solução ideal. Mas, como tudo na vida, as coisas são muito mais complexas e controversas do que transparece no discurso oficial.

Com efeito, o tema anda em alta ultimamente. Há alguns meses o Ministério da Saúde determinou a oferta de nada menos do que 29 procedimentos das chamadas Práticas Integrativas e Complementares (PIC), incrementando em uma dezena aquelas anteriormente disponíveis. As novas ofertas se deram em: apiterapia, aromaterapia, bioenergética, constelação familiar, cromoterapia, geoterapia, hipnoterapia, imposição de mãos, ozonioterapia e terapia de florais.

Mais uma vez, podem ter sido apenas boas intenções (embora com eventuais repercussões eleitoreiras), que precisariam passar por um teste de veracidade e legitimidade científica, pois não seria nada impertinente indagar se essas novidades incorporadas ao repertório de serviços do SUS seriam realmente capazes de produzir benefícios reais para os usuários. Com efeito, caberia esclarecer se tratar doenças com mel de abelhas (ou seria com suas ferroadas, como na tal apiterapia), com ozônio, perfumes, cristais etc. seriam práticas de eficácia comprovada, dentro de critérios baseados em evidências. O argumento de que tais terapias são muito mais baratas e seguras, como gostam de dizer seus defensores, por si só não seria o bastante para justificá-las. Afinal, além de não ofender o bolso (ou o fígado) das pessoas, elas deveriam também ter benefícios comprovados. E as substâncias provenientes de plantas (entre as quais estão venenos poderosíssimos e também compostos inócuos) também precisam passar em tal vestibular, para adentrarem ao rol dos tratamentos de eficácia realmente comprovada.

É bom lembrar, sempre, da existência de metodologias de avaliação terapêutica hoje disponíveis, e que se apuram cada vez mais, tais como os estudos duplo e triplo cegos, além da necessidade de grande número de observações para se chegar realmente a conclusões confiáveis. Para procedimentos e substâncias que não tenham sido submetidos a tanto, o melhor seria postergar sua incorporação no SUS, embora a expressão “critérios científicos” costuma se afigurar como maldita para os defensores das PIC. A própria homeopatia, por mais testada que seja, não conseguiu até hoje passar em tal teste. A revolução científica, que entre outras coisas resultou na penicilina, nos transplantes, nas terapias com células tronco, além de ter levado o homem à lua, para não falar na pessoa de Stephen Hawkins, afinal, não pode ser jogada no lixo.

O “efeito placebo” será sempre um argumento de peso, mesmo não sendo o primeiro na lista dos defensores-militantes das PIC. Mas placebo por placebo, pílulas de farinha de trigo (ou de maisena, para quem não tolera o gluten…), funcionariam da mesma maneira.

Com a situação política recente do Brasil, muita gente está saindo do armário em termos de convicções políticas – ou des-convicções, talvez. É o que me move na presente discussão, frente à qual minha atual sensação é de estar assumindo uma posição bastante crítica, uma verdadeira “saída do armário”, ou das malhas do politicamente correto, para usar uma expressão cara ao capitão que nos assola. Assim, devo confessar, para deixar as coisas bem claras, que de há muito acho um exagero aquelas crenças quase religiosas na homeopatia, nos florais, nos aromas… E o assunto se torna paroxístico quando se vê gente da saúde e mesmo políticos (sempre eles) a propagar a crença de que se deve ter, em cada casa e mesmo nas unidades de saúde. um canteirinho de ervas medicinais, capazes de fazer pelas pessoas aquilo que a medicina careta (e cara) não dá conta.

Passei a me sentir mais confortável, quando li na mídia (ver link ao final) que há quem ponha fé nas armas da razão contra estes verdadeiros “sistemas de crenças”: o Instituto Questão de Ciência, disposto até mesmo questionar o uso de verbas do SUS em tais terapias. O instituto já chega com as armas da razão apontadas contra a homeopatia, prova de que não teme uma luta inglória. A matéria faz referência ao médico inglês (e ex-homeopata…) Edzard Ernst, que parece alguém disposto a atacar seu antigo credo com o zelo do iconoclasta. “A homeopatia está entre os piores exemplos da medicina baseada na fé”, escreveu Ernst num artigo de 2009 para o periódico The American Journal of Medicine, “que ganha o apoio estridente de celebridades e outros lobbies poderosos no lugar de um desejo genuíno e humilde de explorar os limites de nosso conhecimento usando o método científico”. Fala especialmente daquele princípio da “similitude”, que defende que a semelhança entre o efeito da doença e o de uma substância é que a recomenda como medicamento, além do efeito da diluição (quanto mais diluída, mais potente a droga).  “Tanto pacientes como médicos têm direito à auto-ilusão” diz ele.

Num país como o Brasil tudo pode acontecer. Não nos esqueçamos que dinheiro oficial financiou aqui por anos a fio algo como fosfoetanolamina, droga totalmente inócua no câncer, sendo apoiada na Câmara dos Deputados por aquele que agora ocupa o posto número um da República.

Enfim, colocar ao alcance de todos, coisas como apiterapia (picadas de abelha?), aromaterapia, cromoterapia, geoterapia, imposição de mãos e terapia de florais, chazinhos diversos de quintal e que-tais, sei não, acho que é coisa de maior responsabilidade. No limite, já se sabe: para os pobres os chazinhos de quintal; para os mais ricos as drogarias comerciais e os fármacos que bem ou mal os livrarão de suas mazelas. O que ninguém esclarece é que para um determinado princípio ativo vegetal se transformar em medicamento ativo são necessários anos de pesquisa e outros tantos de desenvolvimento industrial – além de investimentos de centenas, milhares ou até milhões de Dólares ou Euros.

***

– Para as questões colocadas pelo Instituto Questão de ciência, veja:

– Para discussões anteriores sobre tal tema aqui neste blog:

– Veja também este artigo da jornalista especializada em Saúde, Claudia Collucci, da FSP:

– As novas PIC introduzidas pelo Ministério da Saúde em 2018:

– Sobre o Programa Farmácia Viva, no DF:

 

Uma resposta para “Práticas alternativas, integrativas, complementares e não custa indagar: também efetivas?”

  1. Mais uma vez Flávio Goulart nos brinda com uma excelente e obrigatória reflexão. A fé, sozinha, talvez não remova montanhas.

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