O sonho de Dom Bosco e a saúde em Brasília

Muito se fala até hoje no famoso sonho de Dom Bosco, no qual, supostamente, estaria contemplada uma antevisão de Brasília. Alguns acham que, embora tendo tal sonho existido de fato, ele foi trazido à luz de forma oportunista por assessores de JK, no afã de convencer a Igreja Católica, na figura do Cardeal Primaz do Brasil, Dom Carlos Motta, a apoiar a construção da nova capital, considerando ser o prelado um influente conservador, que apoiava na época a UDN de Carlos Lacerda, engajada em forte campanha contra a construção da cidade. Não deve ser por acaso que os Salesianos, congregação fundada por Dom Bosco, foram agraciados com substancial e já então valorizada gleba de terreno na W3 Sul, onde ergueram colégios e igreja. Mas na verdade, o tal sonho é um primor de imprecisão, ao descrever um sítio situado entre 15 e 30 graus de longitude, sem precisar se ao Sul ou ao Norte, e sem determinar a latitude, ou seja, que poderia se materializar em lugares tão diferentes como a América Central, o Norte da África, a Indochina, ao Norte. Ou então, ao Sul, numa faixa de terra onde estariam a Bolívia, parte do território brasileiro, todo o Sul da África e boa parte da Austrália (onde, aliás, uma capital planejada também foi construída). Mas o sonho do Santo erra mesmo é quando descreve uma “grande civilização, Terra Prometida, onde correrá leite e mel”, além do mais, de uma “riqueza inconcebível”. Certamente não foi aqui que isso veio a acontecer. Na saúde, inclusive.     

Acabo de ler no Correio Braziliense (ver link) oportuna matéria na qual populares e especialistas constatam o fato incontestável que a modernidade de Brasília na verdade não se reflete nas condições de vida que são oferecidas a seus moradores atuais. Questões de saúde não são consideradas em tal reportagem, mas acredito que também nesta área – e de forma muito intensa – isso também ocorra.

Não custa lembrar que a formulação original do plano para a saúde na nova cidade era realmente digna de “leite e mel”.  Tudo começou com o Plano de Saúde Bandeira de Mello, no qual se propunha a eliminação da multiplicidade de órgãos assistenciais; a distribuição dos centros de saúde e hospitais em sintonia com os grupos populacionais;  medidas diversas de redução do custo e aumento de eficiência; o foco na comodidade da população, inclusive com livre arbítrio na escolha do médico; a remuneração médica por produtividade, em regime de trabalho integral; a ausculta à população por meio de conselhos comunitários de Saúde, além do atendimento domiciliar. Isso incluía a construção de um hospital de alta complexidade, de onze hospitais gerais e seis hospitais rurais, circundados por Unidades Satélites. Isso teve inspiração nítida no Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS), que à época representava o que havia de mais avançado em organização sistêmica da saúde, em termos mundiais.

O sistema de saúde de Brasília, assim, nasce sob a égide da Atenção Primária em Saúde e dentro de tal espírito foram criadas as primeiras unidades de saúde. Em Planaltina, um convênio entre UnB e SES-DF (na época FHDF) junto ao antigo Funrural, viabilizou durante alguns anos uma estratégia baseada em tais princípios. Registre-se também, por questão de justiça, as tentativas de manutenção de tal proposta nas gestões de Francisco Pinheiro da Rocha, nos anos 60 e Jofran Frejat, nos 70.

Porém, depois tudo mudou. A cidade cresceu, a pressão das cidades do Entorno aumentou, a SES-DF nem sempre teve à sua frente gente que entendia do assunto – ou que então que intencionava de fato levar o sistema no rumo da especialização e do hospitalismo. E temos hoje o sistema insuficiente, fragmentado, batido pelos maus ventos da politicagem, além de desconexo e ineficaz, que tanto deixa a desejar em relação aos sonhos primordiais que o criaram.

A “grande civilização” e a “terra prometida”, a “riqueza inconcebível”, em matéria de saúde, pelo menos (além de outros campos) não se realizaram aqui.

Que São João Bosco nos proteja…

***   

Eis aqui o sonho de Dom Bosco:

“Por muitas milhas, percorremos uma enorme floresta virgem e inexplorada. Não só descortinava, ao longo das Cordilheiras, mas via até as cadeias de montanhas isoladas existentes naquelas planícies imensuráveis e as contemplava em todos os seus menores acidentes. Aquelas de Nova Granada, da Venezuela, das Três Guianas, as do Brasil, da Bolívia, até os últimos confins. Eu via as entranhas da montanha e o fundo das planícies. Tinha sob os olhos as riquezas incomparáveis desses países, as quais um dia serão descobertas. Via numerosas minas de metais preciosos e de carvão fóssil, depósitos de petróleo abundantes que jamais já se viram em outros lugares. Mas isso não era tudo. Entre os paralelos 15 e 20 graus, havia um leito muito largo e muito extenso, que partia de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz disse repetidamente: “Quando escavarem as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a Grande Civilização, a Terra Prometida, onde correrá leite e mel. Será uma riqueza inconcebível. E essas coisas acontecerão na terceira geração”. 

***

Leia mais:

·         https://novaakhetatonbr.wordpress.com/breve-historia-de-brasilia-brief-history-of-brasilia/capital-do-terceiro-milenio/profecia-de-dom-bosco/

·         https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/06/16/interna_cidadesdf,763251/modernidade-de-brasilia-nao-e-refletida-em-infraestrutura.shtml

·         Göttems LBD et al. Trajetória da política de atenção básica à saúde no Distrito Federal, Brasil (1960 a 2007): análise a partir do marco teórico do neo-institucionalismo histórico. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(6):1409-1419, jun, 2009

·         Paranaguá de Santana, J. 30 anos do SUS no DF: história e perspectivas. In: https://issuu.com/acadmedbr/docs/seminario_sus_30_anos__2_

·         https://saudenodfblog.wordpress.com/2018/03/27/voce-conhece-bandeira-de-melo/

 

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