Saúde em Portugal (VIII): “valor” ou “volume”?

Este post não diz respeito diretamente a uma questão do sistema de saúde em Portugal, como os anteriores a ele. Mas como tive oportunidade de assistir um evento sobre o tema mostrado no título, além de também ter percebido aqui uma preocupação mais generalizada sobre tal questão, aproveito para comentar algo sobre o assunto (não que entenda muito dele, mas por considera-lo muito pertinente). A questão central é: até quando o sistema de saúde vai continuar sendo movido (e remunerado) por juízos de “volume” (ou quantidades) e não de “valor”? Esta discussão, na verdade, eu já havia presenciado no Brasil, mas só no âmbito da saúde suplementar. Acho que ela é também cabível no SUS. Vejamos algumas informações, baseadas em artigo recente do New England Journal of Medicine (ver citação ao final).

Saúde baseada em valor é um modelo de prestação de cuidados de saúde em que os prestadores, incluindo hospitais e médicos, são pagos com base nos resultados de saúde do paciente, ou seja, mediante contratos em que os prestadores são recompensados por ajudar os pacientes a melhorar sua saúde, reduzir os efeitos e a incidência de doenças crônicas e viver vidas mais saudáveis, sempre de forma baseada em evidências.

Isso difere de abordagens tradicionais de pagamento por serviço ou procedimento prestado ou mesma de per capita, nos quais os prestadores são pagos com base na quantidade de serviços de saúde que entregam. A noção de “valor”, no caso, é derivada da mensuração de resultados de saúde versus os custos que os mesmos acarretam ao sistema de saúde. Assim, estima-se que tal abordagem resulte em benefícios não só para os sistemas de saúde em sua totalidade, mas também para pacientes, prestadores, financiadores e para a sociedade como um todo.

Do ponto de vista dos pacientes, isso significa mais do que gastar menos dinheiro para conseguir a melhor saúde. Com efeito, administrar uma doença crônica ou condição como câncer, diabetes, hipertensão arterial, DPOC ou obesidade pode ser dispendiosa e demorada para os mesmos. Nos modelos de cuidados baseados em valor, o que se almeja em primeiro lugar é dar suporte aos pacientes para a se recuperarem de doenças e lesões mais rapidamente e evitarem doenças crônicas, dando como resultado menos consultas, exames e procedimentos médicos, com menor gasto com medicamentos, já que sua saúde, no longo prazo, melhorará.

Para os provedores, a estratégia em foco permitiria alcançar eficiência, além de maior satisfação do paciente. Assim, enquanto os prestadores podem precisar de gastar mais tempo em novos serviços e com pacientes, com base na prevenção, em compensação vão gastar menos tempo em gestão de doenças crônicas. Sem dúvida, a qualidade e as medidas de engajamento do paciente aumentam quando o foco está no valor, ao invés do volume. Além disso, os provedores não são colocados no risco financeiro advindo de outros sistemas de pagamento, como é o caso da capitação. Mesmo em sistemas que buscam lucro financeiro, pode-se prever, dentro de tal modelo, a geração de maior retorno por episódio de cuidado prestado.

Para quem paga, seja uma operadora de planos de saúde ou mesmo o Estado, também haveria vantagens, dado o controle de custos e de risco que tal modelo oferece. O risco é reduzido ao ser difundido ao longo de uma população maior de usuários, mais saudáveis e com menos reivindicações. O pagamento baseado em valor também permite que os pagadores contem com mais eficiência, através da agregação de pagamentos que cobrem o ciclo completo de cuidados do paciente em condições crônicas, abrangendo períodos mais abrangentes.

Outra vantagem refere-se à possibilidade de se alinhar produtos e serviços com resultados positivos do paciente a custo menor, aspecto relevante em um cenário de despesas crescentes, como é o caso da saúde. Não é por acaso que se registra atualmente a tendência internacional de que a própria indústria da saúde queira amarrar os preços das drogas e outros insumos ao seu valor real para os pacientes, processo facilitado pelo grande crescimento atual das terapias individualizadas.

Do ponto de vista coletivo, ou seja, da sociedade, também há vantagens a considerar, visto que a melhoria de indicadores de saúde também reduz gastos, seja com as doenças crônicas, nas internações dispendiosas e nas emergências médicas.

A baseada em valor está também acarretando a formação de novos modelos de prestação de cuidados, entre os médicos e os hospitais, ao priorizar abordagens orientadas por equipes no cuidado do paciente e compartilhamento de dados, de forma que o cuidado seja coordenado e os resultados possam ser medidos facilmente.

Dois exemplos são destacados na publicação: o das Casas Médicas e o do Accountable Care Organizations – ACO.

Nas Casas Médicas (Medical Homes) quebra-se a relação estanque nos cuidados médicos primários; ao contrário, eles estão integrados com os especializados e agudos, com foco sempre no paciente. Uma Casa Médica não é necessariamente um local físico, mas sim uma estratégia de abordagem coordenada para o cuidado do paciente, liderada pelo médico de atenção primária, coordena uma equipe de cuidados clínicos totais a pacientes (destaque meu [Flavio Goulart]: isso certamente poderia ser feito por enfermeiras também, mas o NIJM não menciona isso). Tais unidades estratégicas de cuidados coordenados e focados no paciente (PCMH em inglês) fazem compartilhamento dos registos médicos eletrônicos entre todos os prestadores da equipe, visando colocar informações cruciais do paciente na “ponta dos dedos” de todos os membros, permitindo que os mesmos acessem os resultados de exames e procedimentos, mesmo se realizados por outros médicos e demais membros da equipe. Esse compartilhamento de dados teria o potencial de reduzir o cuidado redundante e os custos associados.

Outro modelo, de matriz bem norte-americana, é o das “Organizações de Cuidados Responsáveis” (Accountable Care Organizations – ACO em inglês). Tais organizações foram originalmente projetadas par os sistema Medicare e  Medicaid. Neste modelo, médicos, hospitais e outros prestadores de cuidados de saúde trabalham como uma equipe em rede, visando oferecer o melhor cuidado coordenado, com o menor custo possível. Cada membro da equipe compartilha risco e recompensas, mediante incentivos para melhorar o acesso, a qualidade do cuidado e os resultados para os pacientes, ao mesmo tempo reduzindo custos. Tal abordagem difere da prestação tradicional de cuidados de saúde, em que os prestadores individuais são incentivados a demandar mais exames e procedimentos, além de receber cada vez mais pacientes, em busca de remuneração, independentemente dos resultados do paciente.

Dentro de tal sistema desenvolveu-se também um modelo hospitalar de compras baseado em valor (VPB), dentro do qual os hospitais de cuidados agudos recebem pagamentos ajustados com base na qualidade do atendimento que entregam, o que deve incentivar a melhoria da qualidade e da segurança nas internações. Algumas das justificativas apontadas são: (a) Eliminação ou redução de eventos adversos (erros iatrogênicos que resultam em danos ao doente); (b) Adoção de padrões e protocolos de cuidados baseados em evidências que façam os melhores resultados para a maioria dos pacientes; (c) Mudança de processos hospitalares para criar melhores experiências de atendimento ao paciente; (d) Incremento da transparência dos cuidados para os consumidores; (e) Acreditação de hospitais de alta qualidade a custo menor (para o Medicare).

E para o futuro, o que se espera dessa “saúde baseada em valor”? A publicação admite que passar do sistema atual de taxação de serviços e procedimentos para valor levará tempo, com uma transição que parece ser mais difícil do que o esperado. Há de fato um cenário de saúde continua em evolução, no qual os prestadores devem aumentar a adoção de modelos baseados em valor, já que podem vislumbrar vantagens financeiras de curto prazo antes do declínio dos custos a longo prazo. No entanto, a transição de serviço para valor mostra ser o melhor método para reduzir os custos de saúde, aumentando o cuidado de qualidade e ajudando as pessoas a levar vidas mais saudáveis.

SAÚDE VALOR IMAGEM

 

Para ver o original, acesse: https://catalyst.nejm.org/what-is-value-based-healthcare/

 

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